17.11.09

Manual Lua da Crise & Caos. Lição 1 - Preparo para a crise: o contexto psico-emocional.

Não pense que é fácil. Não pense que é simples. São 20 anos de prática, e às vezes eu ainda preciso de ensaio. Mas levando em consideração que tem gente que não consegue ter uma crise porque o black dog não tem mais salsicha de soja, eu posso dividir com os pobres ponderados e pés-no-chão umas dicas de crises bem feitas.
É preciso planejamento, prática e cara de pau, muito e grande. Por partes.
É preciso de um motivo absurdo. Crise porque perdeu o emprego qualquer zé ruela pode ter. Foda mesmo é ter crise porque a Risqué não produz mais o Cereja. Isso sim é motivo pra uma crise. Mas quero abarcar uma maior parcela de meus (oooooohohoho) leitores. Então, vamos usar um motivo realmente doloroso.
Motivo: Você não pode ir a um show dos Beatles. N-U-N-C-A. Antes de rir, pense bem. Você NUNCA vai poder berrar BlackBird com os braços pra cima, enquanto o J. Lennon aponta do microfone pra galerê. Você NUNCA vai poder beijar o homem/a mulher da sua vida enquanto a guitarrinha de Something faz corações derreterem. NUNCA vai ter uma tag de foto no orkut na setlist colada no chão do palco, e a bordinha do pé do Paul. Sacou? É dramático.
Posto isso, fica tudo muito simples. Mentalize a sua necessidade física de ir ao show dos Beatles. Repita mil vezes: eu vou a um show, eu vou a um show, eu vou. Assista vídeos. Ensaie cenas. É preciso acreditar que você poderia ir se não fosse...
... Agora vem a parte difícil. A Arte de Atribuir Culpas Aleatórias.

[em breve, ou não.]

15.11.09

fluxo inconsciente

um espécie de desmedo, o que é novo.
uma espécie de amor vadio, que é velho de guerra.
eu sei que você sabe que eu não ligaria, mas acho que ficou aquele cheiro leve de susto no ar, que faz as narinas ditalatarem umas vezes seguidas, que é quase imperceptível (o movimento, não as narinas, .) mas denunciam qualquer coisa de ilegal que anda correndo pelas teias.
a mesma velha mania, os vícios nem velhos nem novos, só depende de onde você está olhando.
eu devia mesmo era ter ligado e dito: te amo a valer, otarel, mas isso só tornaria as segundas-feiras ainda mais obscuras, que não existe amor que sobreviva a uma segunda de manhã, mas isso é outra história, porque as segundas estão aí, não que alguém esteja sofrendo mais que o comum por isso.
e daí que eu devia parar com as drogas, porque eu realmente acho que tudo isso é só uma grande encenação, e que deve ser do jeito que eu quero, porque além de tudo sou insuportavelmente mimada, e olha só. olhando daqui eu me acho bem normal - o primeiro que disser que eu sou a rainha do dramma e da crise absurda será torturado com requintes de crueldade.
não que alguém se importe com essas coisas - vocês já pensaram que a gente deveria limpar as idéias com cotonete? deve ser por isso que eu tou surda, o cérebro fica meio longe de ser alcançado com as tais hastes flexíveis, porque ninguém me paga pra fazer propaganda - e não que isso fizesse alguma diferença pro império-de-limpadores-de-ouvidos.

reavaliando o que eu digo, porque tenho mudado de idéia como quem toma água, (e sim, porque as idéias tem que entrar, antes de sair. isso deve ser a linha de algum filósofo francês, ou alemão de algum-qualquer tempo, revisitando aquele grego que eu não li porque nem sei quem é) desencana de jogar bom senso na caixa d'água do mundo, bom senso serve de nada, te juro.
taca lsd que eu aposto como as coisas melhoram. e se piorar... bem, não dá muito pra ficar pior, dá? a menos que as baratas voadoras tenham idéias mirabolantes, mas daí é fugir da realidade, , minha gente.


e serve um wiskinho pra tia lua que hoje tá dose de ser eu.

9.11.09

dicionarizada.

devir.
1. vir-a-ser;
2. fluxo permanente, movimento i n i n t e r r u p t o , atuante como uma lei geral do universo, que dissolve, cria e transforma todas as realidades existentes.

escrevo, que sou amante das palavras. e te escrevo, que sou, colhendo todas as hipóteses, amante sua. e quando te nomeio de-vir, meu devir, é que gosto de saber que mês longe num rasgou nossas primaveras, e ainda há flor, pássaro e néctar.
e de vir, de tempos. que já vão longe, e soube unir duas pontas distantes, nesse sul e nessa sampa.
te dissolvo, te crio, te transformo, te como inteiro pra saciar meus desejos, e é dum desconhecimento qualquer que me apaixono. que nem sei se ligo, dessas realidades intangíveis, de te ter tão longe.
quero lamber teus mistérios com a ponta da língua - e hão de ser doces. quero te ter, pequeno, e saber teus gostos, segredos, agruras e prazeres.

me conta, de você?
e agora, espero e guardo, um beijo que quero, da boca tua a devorar a minha, e eu a roubar teus ares, e num afã desesperado, ser pele, saliva, hipótese e gozo.

3.11.09

a day in the life.

black bird me acorda, cada dia um tanto mais cedo. cada dia soneco menos, cada dia levanto mais rápido, de um sono sem sonhos, e curto.
antes de botar os pés no chão, tateio o criado de improviso, engulo 2 pílulas com mais água do que o necessário, e a sede é muita.
me roubaram uma hora de vida, e são paulo ainda tem aquela cor encardida do amanhecer,
que eu quase não vejo. a janela quebrou, e não tive tempo de ligar e dizer: quebrou. arruma?
sem nem sentir qualquer gosto, engulo um pote de iogurte, que me salve da gastrite, que cultivo carinhosamente os dias todos. gosto mais de sair pra subir a rua, olhar os ipês amarelinhos, e roxos, enquanto trago os cigarros furiosamente.
alguém grita qualquer música saxã na minha orelha, que os dias azuis da tropicália já se foram, e só a saudade não é o bastante pra trazê-los de volta.
trabalho.
cada dia menos tempo de tirar os óculos, cada dia menos tempo de jogar conversas fora. aceito mais trabalho pra casa.
cada dia mais amarga, mais séria e menos colorida.
anseio o almoço, tomo uma sopa de pacote, que daí tenho mais tempo pra mais cigarro e mais trabalho.
tenho medo de virar uma workaholic desendinheirada, pelo simples prazer de encher esses dias em que já não amo pessoas com qualquer coisa que pareça justa, ou interessante.
anoto na agenda coisas interessantes que o cansaço ou o trabalho não me deixarão fazer.
no ônibus, penso se devo acender um cigarro, mas eu nunca acendo. em casa, como enquanto vejo uma novela qualquer, que eu odeio, mas vejo.
jogo umas conversas fora, asso, recheio, confeito cupcakes, que não como. sorrio amarelo pra minha mãe, e tenho medo do dia em que ela morrer, e nisso eu penso todos os dias.
não planejo o fim de semana, não planejo os dias, não planejo coisa alguma, só espero.
deixo o relógio avançar até o limite, nunca depois das 3: eu já evito olhar pra saber que me atraso pro sono.
fumo um último cigarro, odiando o corpo todo, amando o cabelo todo. a bolsa da natação me espera. ansiosa, suponho.

ajeito as almofadas, de modo pode deitar e ler umas mafaldas antes do sono, sem sonhos. um minuto antes de dormir, tateio o criado de improviso.
ai de mim, se as pílulas não estiverem lá.

1.11.09

Se chover, não beba gim tônica

São 7 horas de sexta-feira e você está no bar, cercado de amigos, pedindo a primeira dose de gim tônica. O clima está legal. O da mesa de bar, porque lá fora está chovendo uma daquelas chuvas que derrubam barracos, geram discursos vazios dos governantes e manchetes sensacionalistas. Você está cansado depois de uma semana de trabalho. Tudo que você quer é ficar ali, jogando conversa fora e gim tônica pra dentro.

São 9 horas, a chuva é a mesma, mas os assuntos variam. Começa-se na política, passa para o futebol e, como sempre acontece naquela mesa de bar, chega-se ao sexo. Especificamente, fala-se sobre a melhor trilha sonora para uma boa transa. Você chega a opinar, dizer uma bobagem qualquer. Mas prefere calar. É o tipo do assunto que é melhor ouvir do que falar. Afinal, você vai perder qualquer chance de traçar aquela ruiva com sardas que está sentada do outro lado da mesa quando ela souber que você gosta de transar ouvindo A Voz do Brasil. E o pior, ouvir da sua própria boca, a mesma boca que pretende percorrer e contabilizar todas as sardas daquele corpinho cor de morango com chantili. Mas você é prudente. Prefere reservar sua boca para a gim tônica.

Já é meia noite. A chuva está ainda pior, mas você nem percebe mais. A mesa se reduz a 5 pessoas, entre elas a ruiva. Depois do sexo, todos fumam e o papo chega até o significado da vida. Agora, você não tem medo de dar opinião. Até porque pelo nível de idiotices, qualquer coisa que você disser vai parecer um poema do Fernando Pessoa. E já que o nome dele veio à cabeça, você decide citá-lo. “O Binômio de Newton é tão belo como a Vênus de Milo. O que há é pouca gente para dar por isso”. Mesmo sem entender o que sua frase tem a ver com o assunto, todos dirigem seus olhares cheios de admiração para você. Que até pensa em citar a fonte, mas conclui que é melhor ficar com os créditos. Pelo estado de embriaguez geral, ninguém vai se lembrar da frase no dia seguinte. Você vira um copo cheio de gim tônica e muda de cadeira, sentando ao lado da ruiva.

São 3 e meia. A chuva torrencial se transforma em chuva de granizo. A única mesa ocupada no bar é a sua. Que agora tem só 3 pessoas. Entre elas, a ruiva. Você fala coisas ao pé do ouvido dela. Ela ri. Você só não é o mais bêbado da reduzida mesa, porque a ruiva mal consegue parar sentada. Você tenta chamar o garçom e pedir mais um copo de gim tônica, mas percebe que os sons que saem da sua boca não conseguem se transformar em palavras. E mesmo que conseguissem, de nada adiantaria, porque a chuva caindo no telhado inviabilizaria uma conversa até entre vendedores de feira. Você se questiona se a ruiva está entendendo alguma coisa que você diz e conclui que não, que ela só ri dos grunhidos que você emite porque ela quer sentir sua língua percorrendo aquele corpo cor de morango com chantili. Quem sabe, até lambrecado de morango com chantili. Você ouve um som ao fundo. Talvez alguém esteja tentando falar com você. Mas você não consegue entender nada. E como você também não consegue ser entendido, resolve se expressar através das mãos. Mais precisamente, enfiando sua mão direita no peito esquerdo da ruiva. Qual não é sua surpresa quando você leva um tapa à la Splish Splash. Não, não foi a ruiva, que inclusive parece estar gostando bem da situação. Então, você percebe que a outra pessoa que tinha restado na mesa era justamente sua namorada, que tentava te lembrar aos gritos que ela estava ali, assistindo toda aquela vergonhosa cena. No dia seguinte, já com o calor da situação resfriado, você a convence de que não foi bem assim, que ela também estava muito bêbada e que acabou vendo mais do que realmente aconteceu. É uma batalha dura, mas você vence pela insistência. Ela te perdoa, mas impõe uma única condição: gim tônica, nunca mais.

Manuel Rolim



e isso eu li aqui, viu? tudo que eu queria dizer, achei já escrito. e me mantenho no meu direito de me manter calada.

26.10.09

ela assoprou, e disse:

- sente isso?
- sinto.

meio sem jeito, ela se enfiou de volta no livro, pra fingir que não olhava o jeito que ele olhava o mundo.

11.10.09

[ d o m i n g o . ]

Pouco usual. Pouco peculiar.
Hoje o mundo me é confuso, e lento. A cidade me apetece um pouco mais, com essa despersonalização, descarrificação. O céu azul, isso não parece ser daqui. Essa bossa meio eletrônica de nome francês faz as músicas parecerem novas, mesmo sendo velhas. Escrever olhando a janela, de frente. Faz o amor parecer velho, mesmo sendo novo.
Rejuvelhecer.
A noite meio caótica, eu era velha, não muito dada a esse ar juvenil-infantil, os hipotéticos 40 anos me pesando os olhos. Assumo agora a atemporalização de tudo, e não que faça sentido ou seja bom, é só isso.
O sol aquece os dedos, meu olhos me olham através de óculos, na tela. Eu sou uma pessoa melhor quando fumo.


Cogitar esperar o dia lá fora é quase imaginável.
Às vezes perder o tempo é bom, e não perdido, e nem ligo dele passar.
Já não ligo pras quantidades, quando descubro a intensidade.

Intenso é ser eu, quando não sou.
E basta.

2.10.09

fastio

fome, quanta fome, meu deus.
ensaiei uma comida, que não tinha gosto. que fome.
ensaiei um telefone, mas não sabia pra onde ligar.
tentei dançar, sozinha; e nada.
a fome me corroía.
nem a cerveja, nem a janela, nem a cidade, nem nada de nada.

as aquarelas, o nankin, as fotos.
e a fome.

então, um saco de pregos. bem pequeno, estavam todos enferrujados. com a ponta da língua provei uma das cabeças, que os lábios logo sorveram todo o corpo.
um, dois, dez pregos.
tinha gosto de jantar, e de sobremesa.



- dá-me pregos! amor, compra-me um saco de pregos, que tenho ganas de comê-los...!

14.9.09

Guaíba.

Mesmo sem fechar os olhos, eu lembro das cores. E era de encantar, eu sabia. Aqueles encontros despropositados, quem é que podia supor.
O cheiro era diferente, o calor, as chuvas. E os olhos cinzas de quem é que nem eu, sabem ver mais azul, e mais estrelas.
Todas as vozes me eram doces. Tantos sons. De passados, de acasos, e desejos. De saber ouvir tudo quanto acho lindo, e que se alonga pelos anos, mesmo sem eu saber como.

Suas costas rasgavam o por-do-sol, e o céu deitava rubro, e doce nos meus lábios. Eu não parava de me repetir, qual a probabilidade, qual a probabilidade.
Foi só no telhado, quando eu vi as luzes - eu girava de mãos dadas com quem era feito sonho, distante - que eu me dei conta, que a paixão seria maior que todos os dias, já antevia a falta de ar antes de alçar vôo de volta pra casa.

E foi ao laçar dedos, no sofá, entrecortando o frio baixo lá fora, que eu soube. Me deixar pintada nas paredes, num era marca, era promessa de amor.
Amor rasgado, pra sempre.

Os lábios estão salgados e não sei respirar numa cidade sem horizonte.

2.9.09

mas e se...? o3

- tudo aí?
- acho que sim.
- tem que levar casaco, né?
- tá aqui.
- mas esse?
- ai meu deus. não combina com a saia?
- não, é que...
- ai, eu sabia! quem viaja de saia? é melhor ir de calça.
- lua, você não tem uma calça.
- eu sei que não. o carro taí? vamo pro shopping.
- VOCÊ VIAJA EM 2 HORAS.
- eu, não.
- num é as 19h?
- era, mas eu não vou mais.
- como assim?
- eu não vou, não vou, não vou. - e toca a chorar, coloca o cd do nirvana, e rouba um cigarro da mãe.

Opção 1
- vai se foder, entra nesse carro senão vai doer mais em você que em mim.

Opção 2
- ôo, meu bem. cê ta linda. viu? dá um beijo, deixa que eu levo sua mochila. tá?

- tou com medo.
- eu sei, mas...
- ei.
- han.
- tem lanchinho no avião?
- aham.
- tem... gim? rum?
- whisky, acho.
- VAMOLOGOPORRA.



(quem duvida? eu aposto.)

28.8.09

mas e se...? o2

levou bem uns dois minutos com o celular na mão, tentando achar o foco. quando viu as horas, disse tudo que podia dizer.
- maquimérrrrrr.
talvez só eu conseguisse entender, mas era simples, no fim das contas. aquela ressaca infernal, ter acordado 2 horas antes do que deveria. era uma merda.
levantou, montou a cafeteira, deixou no fogo. pegou a toalha. tudo isso num trançar de pernas, um zigue-zague sem fim.
abriu o máximo da água que podia, uma ducha meio fria, forte. restauradora. bebeu água do chuveiro, que sede infernal. tossiu, cuspiu aquele catarro cinzento dos dois maços fumados na noite anterior.
saiu do banho, se olhou no espelho e tinha um olho roxo.
- mas que merda...?- não teve dúvida, cobriu o outro olho de sombra roxa, deu o sorriso mais amarelo do mundo, quase azedo, abriu a porta do banheiro.
e casa inteira cheirava à café. foi até a cozinha, o café tinha entornado, e o pó queimava.
- mas que merda.
desistiu do café, abriu uma cerveja e sentou na janela, com os cigarros. já sabia que o dia estava perdido, e nem tentou remediar.
ignorava os vizinhos que não apreciavam a música tremendamente alta às 5h da manhã.

botou os óculos escuros, e foi trabalhar.

25.8.09

mas e se...? o1

e chegou com os cabelos colados no rosto e no óculos, pela chuva.
- que cê ta fazendo aqui?
- eu vim buscar meu guarda-chuva, porque eu trabalho amanhã.
- você não iria pra outra cidade buscar um guarda-chuva, meu bem.
- é, eu não iria. - e entrou. - eu vim tomar um café.
ele nem se deu ao trabalho de perguntar tudo bem. ela ia danar a falar em pouco, chorando, rindo, e ele não entenderia nada, mas concordaria, dizendo que é, também acho.
quando ela entra em desespero ninguém entende nada. mas ele ouve, e isso basta. preocupado mesmo foi quando ela já tinha tomado metade do café estava no segundo cigarro e não tinha nem começado a soluçar.
- ei.
- que foi?
- que foi você?
- eu vim pelo café.

20.8.09

twitter da madrugada, com muito mais que 140 fuckin caracteres.

e você pensa: caralho, que sono. e daí você lembra que tá pra lá de uma semana que pó de guaraná é lei e que o mar não tá pra peixe e ir pro trabalho de taxi todo dia é coisa de burguesinha que não tem mais o que fazer, e nem precisava trabalhar, né.
e você pensa: po, eu devia tomar um porre.

(mas aí, já nem adiantava mais.)

18.8.09

desabafos.

- preciso dizer que me apaixonei.
- é? conheço?
- acho quem sim.
- quem é ela?
- n'é ela, não.
- é um moço?
- e num deixa de ser.
- diz, ué.
- secos e molhados, ana cañas, doces bárbaros, strokes, adele, jan svankmajer, lewis carrol, eduardo galeano, marina colasanti, louis garrel, rita lee, eva green, marilyn, elvis (mas, o outro), liverpool, sérgio dias, the wires, the who, the doors, moleskine, crayon, oracle, 8.1 megapixels, 100% arábica, minha vó.
- eita.
- e caetano.
- PERAÍ. não precisa forçar também.
- poizé. não só, como de facto.

30.7.09

[entreatos]

o fato é que nem sofrer sofria.
- ter vinte anos é doce., ela disse, quanto cortava o cabelo com uma faca de cozinha - deus abençoe o dia em que você jogou meu canivete fora., e nem tinha rancor na voz. era mais um obrigada, mesmo.
e naquela maré de sentimentos de verdades, ela pensou: -ter vinte anos é mesmo foda., e eu não sei se isso era bom ou ruim, mas pela cara dela ela ruim (ou talvez a cera quente é que fosse daquelas torturas que ela tinha achado pra dar lugar às velhas). e bem, já fazia um tempo que não mentia, e se assustou. leu na parede: confesso, mitômana. e pensou: -será que digo isso mais pra assustar?
pegou o telefone, e não lembrava do número. meio escondida, arrancou a página da agenda de telefone, e a comeu. sim, comeu. - bem, eu ligo pro outro, então., mais um número que ela não sabia, mas esse tudo bem olhar. ela tinha medo de ouvir um não, ou, pior!, um te gosto. e bem, nessa idade você quer é sexo, mesmo.
lavou os cabelos recém-cortados, enquanto matava tempo: - hoje eu vou morrer de tesão, mas na praia.
quando deu por si, era mais taça rolando pra lá e pra cá, nem reparou no fim do som - mas o bom mesmo, é acordar, assim, com sexo sufocando a cama. bem, era quase um acordo, tácito, lânguido, cheio de afãs.

(...)

27.7.09

e no pescoço um lencinho azul, pra disfarçar.

e ao contrário do que todo mundo imaginava, o lencinho disfarçava melhor as olheiras que as marcas da noite.
disfarçava aquela cara cínica, fria. v-a-d-i-a.
disfarçava a enxaqueca recém-cultivada, o canino quebrado e o corte no pé.
sem contar o sangue atrasado, a ânsia de vômito e a tosse persistente que o tabaco guardava em cada passada larga.
um lencinho curto, até com as pontas meio esfiapadas, mas escondia bem as unhas roídas, cobertas com um esmate desses vagabundos, vermelho encardido.
desistiu da roupa toda preta, em nome do lencinho azul.
atou as angústias, deu nó. plantou aquele sorriso pré-fabricado, e saiu pra rua.
e quase parecia feliz.

22.7.09

[nipo]

durante os dias parecia serena, calma. ria, e tava pra ter alguém que tirasse ela do sério.
mas, já começava a se preocupar. acordava exausta. os lábios cada vez mais roxos dos dentes ferinos. doíam os pulsos, as mandíbulas.
de pronto, desconfiou da namorada, como é que andavam fazendo o amôr? ela só lembrava do gozo.
a namorada, por sua vez, com as olheiras cada vez mais fundas, cochilava a toda hora. é que não durmo bem, dizia. e o estranha flor da desconfiança rompendo todas primaveras, e invernos.
uma manhã, não podia respirar, doíam as costelas, que levantavam vergões.
não foi trabalhar.
quando a namorada enfiou a mão por entre suas pernas, disse: hoje não. e sem esperar o porquê, disse: dorme, amor.
e pronto. dormir, assim? é, é que é lindo te ver dormir.
e ela que nunca fora linda e sem pregar os olhos para o sono, ligou de madrugada pra irmã. que com medo, foi logo. e, seguindo as instruções, se enfiou muda por debaixo da cama.
e não fosse o estupor e susto, a irmã podia ter contado o que seu olho viu.


o sono leve, entre suspiros, dobrou os pulsos, o corpo, as pernas. sem abrir os olhos, se dobrou inteira.
e voou pelo quarto em silêncio: um passarinho de papel.

20.7.09

[breve entreato]

pensando nas agudezas dos dias, com cuidado para não furar os dedos, tirava os alfinetes da barra recém-alinhavada.

22.6.09

[miniconto sem meias, II]

- Mas olha... Isso demora ainda?
- Nada. Já vão trazer a fita.
- Ah.
Vestida de preto e cinza, ela joga o lenço de um lado para o outro sobre os ombros, displicente. Faz um ritmo qualquer, batendo os dedos nos braços da cadeira. Por fim, abre a bolsa como se lembrasse de qualquer coisa demais interessante. O rapaz se pergunta se ela tem MESMO 30 anos. Achou que fosse da mesma idade dele, até mais nova, por-que-não? E nada dela achar a coisa, no mistério infinito da bolsa de retalhos.
- Você... quer alguma coisa? Um café?
- Hm! Um mojito, obrigada.
- Eu não tenho certeza de que...
Mas ela não queria saber de nenhuma certeza do cara atrás da câmera, quanto mais de uma dúvida. Sorriu aquele sorriso meio automático, do não-obrigada, do boa-tarde-eu-vou-no-16º. E voltou a procurar qualquer coisa na bolsa.
- Biá!
- Ahn.
- Bia, me arranja um mojito.
- Um o quê?
- Um mojito.
- Ô, porra!
- Eu aposto o que você quiser que sem vodka essa mulher vai falir com o filme. Juro.
- Tá.
Ela olhou com um certo prazer e surpresa pra bolsa, fechou os olhos. Sacou um maço meio amassado, de um cigarro que o câmera nunca tinha visto. Parecia daqueles filmes que a mãe assistia, meio musicais, uma chatice. Mas tinha lá seu charme - admitia. E bem. Talvez ela tivesse até mais de 30.
- Por que você me ligou?
- Oi?
- É, por que eu? Quem sabia dessa história?
- Bem... Me disseram que você queria ser escritora e que sua vida dava mesmo um livro.
Ela riu alto, com os dedos quase espontaneamente pelo rosto.
- É mentira?
- Bem. Não deixa de ser verdade. Mas as histórias vão se repetindo e mudam mesmo de cara.
- Eu...
- É rum, viu?
- Quê?
- Mojito. É rum, não vodka.
- Ah. ... Eu...
- Tudo bem. Sabe, essa história é meio tragicômica, ela muda conforme o meu humor.
Olhou pro céu cinzento, como se dissesse que era o pior humor pra contar aquela história.
- Pode ser qualquer outra, sabe...?
- Não, essa eu escolhi pra você.
Ninguém teve tempo de ver o Cau ficar quase mais vermelho que as unhas da moça. Chegou a fita. E o mojito.
(Ninguém viu a careta que a Bia fez quando viu a bituca de cigarro ser esmagada contra o seu tapete. A arte tem seus mistérios...)

18.6.09

[miniconto sem meias, I]

- Não é só porque você está gravando que eu vou fingir que não te conheço.
- Não precisa fingir nada. Só conta. Está bem?
suspiros



O cara que roubou minha meia-calça
(miniconto em capítulos escrito para andré heibs,
o cara que não roubou meia-calça alguma.)
Pelo jeito eu tenho que me apresentar. É difícil dizer de mim. Parece que eu tenho 30, não é? Bem, é quase isso. Não espere que eu diga que sou casada, nenhuma mulher casada perderia uma meia-calça na madrugada de um dia de semana, num bar vermelho.
Decerto as minhas unhas também eram vermelhas naquela quinta. Até porque eu jamais tomaria um mojito com unhas de outra cor, é uma questão de estilo, se você me entende. Era uma questão de estilo e de princípios.
Mas antes de contar a história, tem uma coisas que você precisa saber. 1. Que a meia-calça era azul marinho, fio 60. Se você é um homem, basta saber que ela não era transparente, até porque aquele vestido era um atentado aos pudores que nunca tive. 2. Que o cara chama O Cara mesmo, porque eu não tive a decência de perguntar o seu nome, a que ponto cheguei. E, por fim, 3. Que essa história é inteira verdade, mas é a minha versão. Então talvez tenha qualquer coisa de exagero, qualquer coisa de surreal.
Mas a verdade é que tudo isso aconteceu, e bem do jeito que eu vou contar.

- Ô, merda.
- Que foi, tou falando errado?
- Não, espera. Essa fita vai acabar.
longo suspiro.

10.6.09

[entrevírgulas, II]

Não pensava em solidão quando aluguei o primeiro sobrado aconchegante que apareceu naquele anúncio de jornal. Não queria mais ser menina, apesar de preservar ainda hoje o robe de seda cor de rosa. Presente de vovó. Não suporto cor de rosa, aliás. E sinceramente, eu não ligo em ter uma cama gigante e dividi-la com um gato. Nessas noites frias me embrulho com dois, três edredons, e ignoro o inverno forçado com uma ou outra dose de absolut, que me faz lembrar o calor dos lábios daquele que já foi chamado de meu, pelos outros.
Hoje, caminhando pela casa e vestida de lua, senti cheiro de música, enquanto Ella fazia explodir todos os meus sentidos naquele jazz só dela. Meu. Aumentei o som, sentei-me em frente ao espelho, e me quis. Escureci os olhos, perfumei-me, enfeitei a boca para combinar com o esmalte, contestando a palidez do meu rosto, e pesquisei a lingerie preta que me traz pose de lolita. O gato buscava carinho em minhas pernas. Tomei-o nos braços, e tive a certeza: eu era o mundo, àquela hora.
Um ou dois suspiros, e uma porta é aberta. Cenas instáveis. Eu lembrava das retinas dele me fotografando milimetricamente. Três horas da manhã. Eu. Ella. Álcool.
- Meus olhos nunca fecham.
Viro todas. De AngélicaBeatrizCarolinaCecíliaRitaGeni, pesam em mim todas as mulheres de Chico de uma só vez. Alterno entre passos trôpegos. Penso em línguas em céus de bocas. Espelho, de novo. Um rosto que não é o meu me observa, com olhos que me botam medo. Me escondia na penumbra de um abajur indiscreto: num canto vazio, te gastava em silêncio.
jaya, do lirícas, escorrendo aos litros.

8.6.09

outro lado II

tarveiz por inguinorança
ou mardade das pió
furaro os óio do assum-prêto
pra ele assim, ai, cantá mió.

Naquelas bandas, menino só recebia nome depois dos sete anos, se vingasse. Poucos vingavam. Mas, ele vingou. E se soubesse contar, já contaria 11 anos. Mas ninguém lembrava disso, e nem havia por que lembrar. Só mais um menino sujinho, praquela rés de cazuzas sem nome. E era assim mesmo que mainha chamava.
- Ô, Cazuza, chêgue...!
E na poeira vermelha que era aquelas bandas, cazuza só era nome de tudo quanto é menino. E como tudo que é menino, o cazuzinha se apaixonou. Nessa idade, inda não se gosta de menina. Tinha molequinho apaixonado de cabra, de galinha. Um amôr-de-fôgos, pra poder bolir e ter prazer no corpo magro.
Mas cazuzinha esse se apaixonou de um assum-prêto, que cantava bem ali, perto. Um canto triste, desolado. Feito ele mesmo.
E cada vez mais o tempo era bom de passar deitado na poeira, vendo e pequeno cantar só pra ele, um namorinho de muito exibir e muito escutar. Era mesmo parecidos. Magrinhos. Cobertos da cor da fome, uma preta, outra marrom. E os dois eram só mais um, naquele monte de tantos-iguais.
E um namoro sem fim, de se aprochegar. Tanto, que assum-prêto 'cabou pousado no braço do menino. Fechou os olhinhos ainda mais pretos que ele mesmo quando os dedos grossos, ossudos lhe fizeram um carinho meio sem-jeito. Piou.
- Cazuzá!, a mãe gritou de dentro. E o passarinho avuou.
A noite foi de vento, quem visse dizia que o inverno molhado ia rasgar a aridez do sertão. Foi de muito chover e inundar, mas só o trapiche do corpo magro do moleque-sem-nome. Era de um sofrer tão grande, o namorado que partiu, sem nem saber a dor que causava.
O menino queria amor, era só. Nem nome tinha para ser amado. Num falava como os grandes, e nem brincava como os pequenos. Não queria bolir com as cabras, num queria era nada. Queria seu passarinho-prêto, era só.
Padeceu. Mainha chamou o vigário, praquela alminha sem batismo subir pro céu. que o corpo suava uma febre terçã que nada segurava. O padre resolveu contar os anos, e viu que os sete já iam longe, mas já nem valia mais, o nome-santo.
E praquela morte anunciada, veio o amôr-primeiro, cantar seu canto triste na janela.
Cazuza riu, feito doido. Já morria. Deixaram até que ele levantasse da cama, quem é que podia sentir a febre partindo? O amor vinha redimir as dores, era a cura. 'Garrou um gravetinho, do chão. E pra num morrer-de-amor, resolveu ter perto de si o amôr primeiro, que tanto lhe amava e não sabia dizer, essa mania de avuar.
E com dois filetes grossos de sangue, selou o mais bonito gostar que o sertão já viu.

3.6.09

outro lado I

ele vai chegar, cheirando à cerveja.
se atirar de sapatos!, e dormir na hora, murmurando:
- dora...
(e você, é maria.)


sol no rosto, nos braços, nas coxas úmidas. e dora lavava o lençol manchado. sexo bom, esse da noite. amôr, ela supõe. quase até murmura, 'meu bem'.
ele chegou meio bêbado, dora nem liga. bateu no rosto, no corpo. e ria, na pele morena. e quando é que ele suspeitava que ela queria um beijo, um amôr?
pois bem, dora revolveu botar roupa-de-casa, pro amor nascer. deixou a flor no cabelo, deixou o cetim caídos pelos ombros. e baton carmin, então?! nunca mais, nunca mais.
- há de me amar.
quando ele chegou, dora sorriu, baixou os olhos. trocou o beijo de lingua, molhado, por um sorriso. e ele nem percebeu o universo desabando em bolhas de sabão.
- comida, preta? de onde é isso?
- eu que fiz.
- me dá cachaça...
- qual o quê!
e nada da branca, e nada da morena. só aí, que ele viu. dora tinha as unhas côr-de-nada, no corpo um cheiro de suor e cebolas. do carmim não se tinha notícia, nem do seu perfume ordinário. aqueles cachos pretos, que se esparramavam pelas costas, num trapo de chita qualquer, amarrados. C-O-Q-U-E.
e ele foi pegando um nojo. na comida, nem tocou. e já não tem prazer no sexo sussurrado, sem gargalhadas. não gozou.
dora botou cada desejo no feijão. passou uma folhinha de alecrim pelo corpo, pra ter cheiro de casa, de lar. se vestiu de mulher-da-vida inteira.
e, que sexo bom. e que homem bom que ela tinha, meu deus. dora sabia fazer amor, e nem sabia disso. e quando quase gozou, pela primeira vez na vida,
ele saiu,
levantou,
se enfiou na calça,
não fechou a camisa.
e dora sem entender nada.
- vou voltar pra maria. mulher por mulher, já tenho a minha. vocês estragam fácil. e deixe que janto em casa. com a mulher que sabe o que eu gosto.
dora tomou um copo de cicuta.
(antes da porta abrir, maria mistura chumbinho no feijão.)

1.6.09

Naquela época, eu ainda usava as calças curtas, de menino. Faz tempo, mais ainda me lembro.
Minha primeira namorada. Devia ter a minha idade, mas era morena, seu corpo ainda infantil já tinha qualquer coisa lasciva, naquele jeito de tornear o vestido pobre.
Eu a esperava na sacada, enquanto os meninos menores se aprontavam. Ela trabalhava. Eu, ia ao colégio. Ela não devia saber ler. Aposto como não sabia. Mas, sorria. E era um sorriso de enternecer.
Era só o sorriso, pela manhã, e a expectativa do namoro adiado, até as oito, nove horas, quando voltava, cansada e com os cabelos pretos caídos no rosto. Quase sempre se detinha, a casa grande iluminada. E eu dizia:
- Quer chocolate, Luzia?
E ela replicava: ah, Menino! Que meu doce é café, com rapadura.
E não tinha jeito, nunca, de me chamar de Pedro.
- É Pedro, Luzia.
- Sinhozinho.
E continuava naquele passo cansado que as mulheres daquele tempo tinham.
Porque Luzia trabalhava, eu nunca entendia. Da pele morena, tão linda. Uma vez me disse: deixe disso, branco.
Branco, branco, eu nunca entendi.
Sei que Luzia foi minha primeira traição.
Eu tinha as palavras mais doces pra ela, e o doce na mão. E ela nunca me vinha. Mas, namoro é assim mesmo. E um dia, Luzia foi trabalhar comendo pão.
- Quer café com leite, Luzia?
- Tenho pão, já, Menino.
E sorria, dum sorriso perdido. me amava, decerto.
Naquela quermesse, Luzia apareceu de braço dado com o Quim, o filho do padeiro. E daquele sorriso perdido, eu não tive nem a raspa.
Luzia, cabrocha traiçoeira.
Como é que me troca, Luzia, com chocolate na mão, por um pão, assim, sem nada?

27.5.09

os pássaros.

o dia suspira, gris.
é duma melancolia que me faz amante.
as nuvens indiferentes, e a janela não cerra os medos da cidade, a umidade.
do vermelho a lamber a pele, me escorrem segredos por entre os dedos.
espero o romance duma vida inteira. escuro, soturno, noturno, arrebatador. para uma vida, numa noite só.

película, fumaça, noir, aralto.
sem esquartejos, haikai.

7.4.09

[entrevírgulas, I]

erguia as reminiscências mais próximas enquanto, estática, cobiçava uma pequena fenda na testa iluminada. decerto já não poderia reconstruir o tal mundo de coisas nesse estado.
me escondia na penumbra do abajur indiscreto: num canto vazio, te gastava em silêncio.

tecia numa rede de perguntas que já não sabia querer, onde era que teu olho mirava, fechado. um sonho, um desejo, ou a sombra improjetada que suava ofegante.

vergava da mão esquerda o tremendo estreito em que se metera; tantas cópias de si nas conversas e não via mesmo seus cabelos em devidos devaneios e a inveja dos caracóis, senhores totais das suas plantas mais vistosas.

engolia possibilidades, regurgitava cada teoria. numa febre terçã, a mente vagava entre aliterações e hiatos, que engolfavam os lapsos de sanidade, contra a quina esquina da parede do quarto, limite seu etéreo reino.

o que lhe descia uma tanto melhor, era a cor que brotava em vez naquele jeito esperto de soletrar casualidades.


com ygor, do disperder.

31.3.09

[sometimes, sometimes]

simplesmente não compreendo como alguém pode viver sem fumar. priva-se, por assim dizer, do que há de melhor na vida. em todo caso, lhe escapa um prazer magnífico. quando acordo pela manhã, já me alegro com a idéia de poder fumar durante o dia, e quando tomo uma refeição, já penso em fumar depois. sim senhor, posso dizer, com um pouco de exagero, que como apenas para ter uma oportunidade de fumar. um dia sem tabaco seria para mim o cúmulo da insipidez, um dia totalmente vazio, sem o mínimo atrativo, e se eu qualquer dia despertasse sabendo que não poderia fumar, acho que nem teria coragem de para me levantar.

francamente, eu ficaria na cama.



a montanha mágica.




---

tomem nos seus respectivos! e nem saiam da cama, podesser?

25.3.09

[ v i n t.a g e ]

Quando deu por si, estava ali. Parada à porta. Não se lembrava do caminho que havia feito, só se lembrava sempre de fugir das portas. E lá estava. Em frente a uma porta. Meio sem jeito, sem poder ir pra outro lugar, bateu.
- Eu te esperava.
A jovem que abriu a porta, parecia cansada, mas sorria. Qualquer coisa de familiar naquela sala, com tantas moças parecidas, com tantas crianças de mesmo sorriso.

- Parecia que você demorava...!
- Eu avisei que vinha?
- Nem precisava.

Estava confusa. Não sabia aonde estava, nem o que tinha feito, por merecer. Olhou pela janela, e a casa era toda torta. parecia tomar conta de mil caminhos. Aliás, ela via pouca coisa que a casa não cobria.
As crianças eram estranhas. Tinham qualquer coisa de familiar, e um olhar opaco, um sorriso perdido, estavam lá, n'outros caminhos, não na sala. Umas meninas mais velhas odiavam tudo, isso estava estampado. E agora, essa última. Um sorriso de perdão, como quem entende a dor, e sabe fazer diminuir.
As fotos, os brinquedos, uns baús bem pequenos, cheios de segredos, enfiados pelas sombras. As cores. A casa parecia recém-pintada, as cores pareciam velhas, mas ainda bonitas. Tocava uma infinidade de músicas, simultâneamente. Mas, elas ornavam no conjunto. Era a maior casa que já vira, ainda que vista de certos ângulos, fosse não maior que um quartinho de fundos.
Livros forravam as paredes, tapetes se sobrepunham pelo chão. Ela SABIA que coisas ali eram irreais. Mas tudo era, com a licença maior de ser-sem-razão.

Chegou como um susto, como um estupor. Estava na casa de seus dias, sozinha. Levando a enorme carga de sua ultra-existência. Soube que carregaria cada uma delas; em seus braços, suas costas, arrastando pelo chão.
Enquanto houvesse casa.

--
Foi quando abri minha porta de destino, aceitei meu passado. Dei a mão a tantas de mim, que sempre me esperam chegar.

19.3.09

[vintage]

2000 foi o pontapé inicial. Antes, era tudo hipótese, tudazul. Antes, era bom.
Sucedeu-se 2001. O poço.
2002 foi o ano do desarmário. Tantas portas de que saí, eu nem me lembro mais.
2003. O ano que não sobrou nada. Perdi até o que não tinha nuncamente achado.
2004 foi anossó. Só eu sei, das esquinas por que passei. Só eu sei.
De 2005, rojo, eu sinto falta. Meu eterno verão de 68.
2006, o ano sem ano. O maior hiato. A maior transição, o ano que não foi ano. Foi passagem.
Em 2007, foi tudo o nôvo. Não repetiu-se uma vírgula.
2008. Unfair.
2009. doismil-enóve. Cigana, latina, cativa.

13.3.09

[pétala]

Toda mulher é lua.
A inconstância. A mutabilidade. O imprevisível. A mulher, crescente.
Num crescente constante de amôr, de sensualidade. De força, coragem, desperta a fêmea, dentro de si. A leôa.
Num ápice, é cheia, plena repleta. Manda o mundo. Ama, vive, faz sexo. Domina os olhares que destila. Olhos de atordôo. Sorriso de pédra e névoa.

Faz-se cadente. Chora. Sofre, dói. Feraferida. A mulher se desvira em fragilidade, em lágrimas, em carícia.
A solidão. Eterna, ela sabe ser eterna.
[Só dorme nos braços de Chico.]

Sangue.

A mulher sangra. E o sangue é a sua eterna redenção. A mulher verte o mundo. Quase some, some.
A mulher dorme, feito a lua nova, que se esconde. E quando ressurge, é outra. De amôrnovo, de outra vida, outro destino. Desvira a vida num mistério opaco, de crescer-se, denovonovamente. Emerge do mar de lágrimas que ela mesma chorou.
Faz-se sêca, e bela.
Pede a cada estrela fria, um brilho de aluguel.

11.3.09

[ l a c u n a ]

não te dizer o que eu penso
já é pensar em dizer.
(e o esforço pra
lembrar é a vontade de esquecer.)

não foi de propósito. beijou cada uma das bocas, lembrou das posições que mais agradavam na cama, as fez.
na sucessão cruel de músicas, cada amante abria abrupto a porta, estuprava suas lembranças, com uma doçura e uma rudeza que ninguém pode ter, só nas hipóteses, mesmo.
nenhuma lembrança falaciosa teve casa, só o mais cruel do real. não teve força. apertando um botão e a dor podia cessar, mas o rádio rolava o mais tétrico que havia de som.
amor era uma hipótese distante, e sofrer era de muito mais gosto e gozo. amor era uma mentira de outros tempos, que ela insistia em fingir acreditar-gostar-sentir.
ela já não era mais eu. e eu, mais ela que nunca.

(lacuna inc. é o caralho, quero sofrer até não sobrar nada.)

8.3.09

sobre como eu me tornei um monstro.

não, eu não vou repassar nenhuma foto de nenhuma criança desaparecida.
afinal, eu sequer olho pras possíveis crianças desaparecidas, vivendo na rua. nem você olha. tá, meu bem?

e se é pra viver de hipocrisia, eu não vou fingir que faço algo. ei, olha aqui:
SOU UMA TREMENDA ACOMODADA! ouviu? é, isso mesmo.

eu não vou panfletar porra nenhuma. eu sei e você sabe que andar na paulista não muda nada.
quer mudar? bacana. molotov no congresso, amygho.

socialismo está morto.
o cristianismo, o humanismo, o caralho-at-four, o amor ao próximo.
só sobrou a hipocrisia.

pra mim, já basta.

4.3.09

[das abstrações.]

- você se importa?
- acho que não.
- tá.
- não, espera.
- que foi?
- me irrita.
- o que?
- isso.
- mas 'cê disse que não se importava.
- não importa. mas irrita.
- quer dizer que importa, então.
- não.
- porra...
- tá, faz o que você quiser.
- mas eu te perguntei.
- e eu te respondi.
- tá.
- tá.
(...)
- mas pra você tudo bem?

24.2.09

[do amor, VI]

- branco no prêto - é isso que ela diz, há horas, intercalando outras frases, que não absorvo. - prêto no branco.
infinitas vezes me rio, com cara de quem ouve. me pergunto, por que te amei. eu já nem sei se amei, ora-vejam-só.
- eu te amo, como branco no prêto. - diga outra coisa. por favor. me fale de música, me conta uma história de quando era pequena. me diz o que almoçou. por favor. - sem você sou pá furada.
não, não cita ninguém, ameba. e se for citar, cita o jabor. cita o sílvio santos. que daí eu rio. pelo menos isso. me diz de você, me deixa te tocar. os floreios da fala me dão coceira. umas metáforas de bar, on-the-rocks-com-gelo. vai, evolui.
- me beija.

tento me lembrar de josé de alencar, camilo castelo branco. qualquer um. até camões serve. me saboto, como sempre. acumula-se no fundo da garganta uma bola de augusto dos anjos.

(prêtobrancoprêtobranco).

um escarro cinza te cobre a boca.

[essa cidade m'atravessa]

e então, sofro. de um jeito bem humano, bem simples, sofro.
o âmago desvira-se e o desmistério de não haver mais vida devia virar sorriso, revirar de olhos, mas não.
é d'uma solidão de dar pena.
dó.
do pó ao pó.

--

sofre meu ventre, de ser botão. o ventre em flôr, nunca que verte-se mel, é sangue. latino, d'alma. sangue. sofre o mistério da sua fraca existência, de sua espera cotidiana.

espera o dia, espera a vez, espera o sal.







.eu só espero que o tempo saiba voar.

20.2.09

[eu não moro mais em mim.]

eu chego a tempo de ver o navio sumir no horizonte. chego no instante em que cai a cortina vermelha, os aplausos irrompendo. ainda que eu nem vá, eu posso ver a porta fechando, as pessoas cansadas, o relógio.
eu chego a tempo, no minuto exato, de saber que sempre estive atrasada. te ligo pra dizer que eu não fui ontem, e que eu nem iria mesmo.
quebro o tempo, enquanto ele me engole.
a reboque, espero cansada a próxima vanguarda.
o suspiro não é o suficiente, seco o suor gelado que me empapa o corpo, corro mais meio metro, para trás.

[está quase na hora de perder o último trem.]

13.2.09

Bordado de Garôa e Sol

Escolho as cores, recorto os tons. A luz que invade é poesia, as letras são de bailar. seguro a mão da menina-mulher que vive através, do meu espelho.

O sorriso dela, reflexo do meu. Eu (em) ela - pelas mãos, que se encaixam. Uma apoteose de acordes em par, fazem palavras surgirem de dentro - em nós - que se embolam. Dançamos as letras-notas. A menina do anel-de-lua faz céu onde meu eu-estrela navega. Azul, que me afaga. Nela, os olhos de cais. Desembarco.

No fim do arco-íris tem o mar. Um mar de nós, de dedos que nunca se embolam. As ondas fazem hiato, de tempo; as ondas são a constância do desejo. Os olhos tem fome, e o tamanho do mar é tanto que já nem sei comê-lo. Devoro aos poucos as palavras que escorrem pela boca, melam os dedos, fazem soluço-de-riso.

[Suspendo a respiração, e de olhos fechados espero o próximo ato.]

Em ondas que lambem o inteiro, um lambuzar de cores. Um som de violão bêbado nascendo em meio aos ruídos monótonos. O riso-sorriso dela, ecoando em minhas pálpebras-borboletas. Visto coroa de guirlanda, princesa que brincava de ser, no faz-de-conta sinestésico. Felicidade, era a lei. E se um dia foi diferente, a noite, espiralada, não deixava ser. Virava tela, em cima da pedra mais alta.

Colho no ar umas bergamotas-de-poesia, eita coisa bôa que é lambuzar-se da palavra alheia! sorvo seus existires, para que haja docêde, em mim (é que vós tens nome dôce!). Misturo o eu no tu, pra ver se desvira numa prosa bôa de ler, comer. Num desenho mágico, de bailar os olhos.

Começo a tecer um arremate pra nossa meada, e é com vontade de fazer um cachecol de dar volta no mundo todinho, que amarro o fio, picoto a linha, vejo nossa obra com olhos de sete-anos, sete-mares, três-marias: duas-metades.


- palavras de duas.

11.2.09

[toco teu silêncio]

espero. espero infinitamente o que eu sei que não virá.
antevejo os risos, os gestos. respiro lembranças e sofro, do não solidificado.
perdoo o que já nem é mais culpa, mato o pouquinho de desmemória que existia em mim.

sofro mais dores do que de fato haviam; os miados insistentes do lado de fora da porta confirmam meu azedume.

5.2.09

[dôcissolidão.]

gato, aspirador, ventilador.
orwell, vertigo, selos.
dossiê?
google, pipoca, café.
louis garrel, eva green, michael pitt.
morango, lichía, atemóia.
mixirica, banana, graviola.
manga, jabuticaba, amora.
vestido, calcinha, chinelo.
edredon, alfomada e meia.

o dia chega a ter mil horas,
e numa noite de sono não conto até dez.



[hoje, lavei as asas. mas choveu.]

4.2.09

[nunca te vi!]

- O que aconteceu com você? - o espelho, impassível, teimava em não responder. Me olhava com uma cara cínica. Deslavada. Inda bem que essa cara não era a minha.

---

o caso é que dei pra escrever, assim, aos litros. pro blog, tenho uns cinco textos por dia. e olha que ando trabalhando feito o cão. cartas, tenho envelopado uma atrás da outra. (a sua está pra chegar, é só esperar um dia ou mais) e as declarações? declaro saudade a todos que vieram, aos que ainda estão. declaro amôres que eu nem senti.
na falta de sentir qualquer coisa que não saudade, enchi minha veia de melancolia. a melancolia virou palavra, agora eu que me aguente.
(preciso de envelopes, selos, uma agenda e uma parede maior, para mais poemas.)

---

- O que você quer fazer hoje? - e me respondeu repetindo a minha pergunta cretina. - FODA-SE.

(então saí de casa, deixei a cara no espelho - com cara de bunda, diga-se de passagem - e fui ser cafajestona. voltei afoita na hora do almoço, corri até o espelho do banheiro.)

- EU QUERO DIVÓRCIO.
Selamos a decisão com um paralelepípedo e muitos olhinhos que me olhavam do chão.

3.2.09

[do amor, V]

(o pior dá solidão, é quando tem gente e o vazio persiste. um homem deitado na minha cama, e eu fujo da pele. porque o hiato é maior que o hífen. o hífen tem o tamanho da rio-são paulo, e persiste.)

2.2.09

[olhalá!]

eu inventei, e queria todo mundo pra dançar comigo.
de cabeceira.

(quem quiser, é só falar. e entrar na dança.)

1.2.09

[do amor, IV]

mais uma noite vazia, mais uma noite sozinha.
pela primeira vez johnny, o gato preto, o mais bonito e que nunca estava no mesmo ambiente que eu, me pediu carinho.


- quando a solidão pede carinhos felinos, é hora de encontrar alguém na rua.

28.1.09

[do amor, III]

entrei no quarto. depois de tantos anos, eu já nem me importava com aquele cheiro de mijo, e de morte. tudo como eu havia deixado. sentei no banquinho.
o velho tremia embaixo do cobertor ralo, imundo. a testa suada. parecia dormir um sono turbulento, e eu não o acordei.
meu vestido, de uma chita vadia, mal encobria os joelhos. desgastado, as cores se misturavam. o vermelho desbotado era quase laranja, e o laranja envelhecido quase da cor da pele morena, quase cinza da poeira do caminho.
o velho botou a mão no meu joelho, estragando com aquele pele suja, gasta, usada, a curva da minha pele, ainda fresca.
- rosa. você voltou.
a essa altura, eu já nem respondia. todos os dias eu ia. ficava horas a fio, com o velho. e levava um livro. ele já não os leria. o velho era um morto que não desistia, uma vida podre que insistia. e então. eu só queria aquelas páginas amareladas. fora isso, nada mais me movia. nem pena, nem carinho. só o desejo de comer aquelas palavras sensuais.
- você não devia ter entrado no barco, rosa. eu te amei mais.
bocejei.
e então, ele abriu os olhos leitosos, cegos. buscou meu rosto.
- diz, rosa. fala.
- eu nunca te amei, velho.
um acesso de tosse balançou aquele fio de vida. os ossos pareciam estalar, o velho sofria.
esquadrinhei o quarto. o banco era meu. a cama eu que trouxe. agora, eu dormia no chão. por umas páginas escritas, eu sofria.
- ô, rosa. casa comigo.
juntava num saco tantos livros quanto podia.
- não me mata, rosa!
senti raiva. minhas tardes perdidas, e agora o velho assim. trocou tudo que (não) tinha por um punhado de livros que a cegueira nem deixava ele comer, mais.
arranquei da cama o cobertor, pensei em jogá-lo no chão. mas eu não dormiria mais ali, em cima daquele suor vagabundo.
- eu vou morrer. me conta um conto?

bati a porta, sem nem olhar pra trás.
o cheiro da morte eu levava no vestido, quis queimar o vestido.
levei o peso do roubo, o peso de me chamar adelaide.

27.1.09

[do amor, II]

- e então, fica sendo assim: você me paga, eu não apareço mais.
- não precisa ser assim.
- sempre foi assim.
- nem sempre.
- nem sempre você pagou.
- agora a questão é o dinheiro?
- sempre foi.
- e o amor?
- teu amor, pra mim, é merda. sempre foi.
- você me agride.
- você me cospe, a anos. dá o dinheiro.
- isso é pecado.
- foda-se.
- é feio quando diz palavrão.
- é feio você inteiro.
- você parece a sua mãe.
- ainda bem. que eu nunca quis ser que nem você, pai.


[um cigarro se desloca ao longe, um homem chora na sarjeta.]

24.1.09

[ladodelá]

olhos de mel que me escorrem a pele, eu já nem sei.
qualquer magia que não sei tocar ou supor te envolve a me perder o ar, é assim.
da vontade adolescente, sobra o cabelo jogado, o sorriso meio a se esconder. sobre desejos, eu já não sei.
sobre mistérios nunca penso, não sei te pensar.
finjo o que sinto, sinto o que finjo e semeio mais verbo do que sei colher vontades.
te erro e isso me dói, te acertar é de doêr.
me desculpo, e não te abraço.



h i a t o -

19.1.09

[do amor, I]

o mais estranho é o modo como as coisas correm, se encaminham, pulam cancela, se atropelam. coisas pequenas, e grandes. coloridas, e quase transparentes. as coisas nem estão lá, às vezes. ou eu nem as vejo. mas fluem, confluem, inundam e ainda assim são novas e macias. e as velhas, tem gosto de infância e lembrança, e até o que amarga no fim é jiló, e é bom.

me irrita o silêncio, o café doce desexistiu, daí a não-irritação. o ciúme virou piada, nesse jogo de amôres não amados, desamados, amados até o fim dos dias. a intensidade dos lençóis suados, a inércia da tv ligada. os sonos alternados na almofada, o cigarro evocando o dia.

feito dos velhos parceiros. antevejo os movimentos, ainda sem esperar surpresas. ainda passo os sinais, na insana expectativa de ganhar qualquer trocado, duma aposta que eu não fiz. espio mágoas pela janela, e não ligo. o morno me acalenta, ainda que eu preferisse os fogos.


[a bem verdade é que gosto mais dos contos que dos fatos.]
meio sem saber escolher, eu te quis.
olha furtivamente para os lados.
cutuca o nariz, traga o cigarro. aperta os braços, cruzados, como se fizesse frio, e o calor é infernal.
- cadê você, porra. (o modo como intercala palavrões chega a assustar, são sonoros e sutis.)
não se pergunta mais, e o que afirma parece não ser verdade. é como se contasse mentiras que virão a ser verdades, não premonições. só um script bem feito da dita vidareal.
os sapatos vermelhos, de salto, não combinam com o jeans sujo. a camiseta amarrotada traz qualquer coisa escrita, que os braços encobrem.
- aparece. caralho.
os pés doem, é visível. me pergunto se fumará a bituca, e o modo como os dedos queimam me faz pensar se ela não pensava o mesmo que eu.
- ora, ora; diz um velho. puxa o seu pulso. parece frágil, não combina. olha pra baixo, segue a passo lento, o braço se estica como uma coleira mórbida.
quando em vez olha pra trás, como quem espera.

em letras garrafais a camiseta anuncia GODOT.

13.1.09

[adeusvocê]

- você veio.!
- ...
- não diz nada, eu já esperava.
- mas...
- diz não. que já sei os motivos, já sei os entraves. finge que hoje é surpresa, e da boa. finge que quer amor, não só um sexo vadio num canto abafado. me beija, me dá uma flor. isso. vai embora, que eu finjo que você não veio. compra a flor, traz o vinho. que eu finjo supresa. eu boto baton nos lábios, eu fico sensual, fico assim de mulher-de-casa não. me chama de Beatriz, que eu te chamo de todos os homens, ou nenhum.
- você é demais dôce.

[um beijo lascivo.]


____________________________________________

a quem colore junto, lua-eu está correndo, na vida. me falta tempo de falar com todos, me falta tempo pra pedir desculpas, me falta tempo pra explicar. mas, o mundo é grande, e logo eu volto.
aqui na cidade faz um sol doido. beijo todas as testas suadas que puder.

7.1.09

dôce.

gosto de dôce em tigela azul. não sei, azul orna com chocolate, com creme, com o morango que se deita suculento no meio do redondo da superfície, distraído.
eu gosto de pegar o morango pelo cabinho. gosto de deixar o suco escorrer. eu como me lambuzando, feito criança.
eu gosto mesmo de uma colherada bem dada, no meio da tigela azul. de encher a bôca, a não caber mais.

hoje, eu te como dôce, pelas beiradas. hoje, quero teu gosto até mais tarde na boca, hoje quero olhar o azul. hoje, qualquer brigadeiro é raro, qualquer bem-casado é vadio.

(amargo escorre dos lábios, e é de prazer muito.)

1.1.09

respirei fundo. os olhos decidiram não abrir. já sentia o sol no quarto: minhas pernas suavam, no enrôsco de lençol, edredon, meias, um mundo de tecido enrolado nas pernas. por que raios eu preciso me enrolar tanto pra dormir? já sabia que não ia me safar. não deitada. sem abrir os olhos, joguei as pernas pra fora da cama. enrolada ainda. foi aí. nesse exato segundo em que o mau-humor mais bolorento se abateu em mim. cobri os olhos com as mãos. eu sentia a mistura de suor e maquiagem. precisei respirar.
uma
duas
i n f i n i t a s vezes.
os cílios colados, os olhos sêcos. era um prenúncio de ressaca, eu sabia. ninguém na cama. ainda bem. não achei minha calcinha. tentei colocar o vestido da noite anterior. fedia. a cigarro, bebida, suor de outros. tive nojo. me enrolei num lençol. o chão estava imundo, as paredes. lixo, em todos os lugares.
- vão embora. e batam a porta quando saírem; isso fui eu quem disse. e daí, foram embora. pra limpar direito, a casa precisa estar vazia.


antes que o dia estivesse arruinado, passei um café forte. liguei o rádio. peguei um saco de lixo. foram embora muitas latas de cerveja, muitos maços, muitas bitucas. recolhi as camisinhas, sem nojo. juntei os restos de comidas, as garrafas, as flores mortas.
taças, copos, colheres. lavei tudo. e a água caía leve. entre um copo e outro, só mais um trago no cigarro. lavei com sabão e vassoura o chão. corria preta a água.
descascava o esmalte vermelho, vadio. parecia vulgar. os olhos com maquiagem borrada pareciam muito ter chorado. mal sabem vocês, que eu desaprendi a chorar.
suava. o cheiro ordinário da noite desprendendo de mim. a casa voltando a parecer casa. limpei os sofás, encerei o chão. estiquei os tapetes.
botei copos no lugar, os livros, os discos. quando as coisas voltavam ao lugar, as memórias se apagavam.
por fim, da noite, só sobravam os cheiros. queimei o vestido, os lençóis. arranquei o resto do esmalte. me joguei debaixo do chuveiro, gelado. e foi com o cabelo pingando, a cara limpa e cheiro de sabonete que me olhei no espelho.

- adeus ano velho; eu disse.

20.12.08

o costa e silva se elevava, como sempre. lá de cima, eu via a minha cidade-namorada. prédios redondos, quadrados. até o copan. que parece a calçada de copacabana. mas muito meu. prédios invisíveis, antenas coloridas. um mar de almas passantes, vagueantes. e eu lá. soberana. a pessoa mais importante do meumundo.
a cidade não tinha cheiro de mar, num era linda de-estrêlas. era dum cinza agoniante. c i n z a . e lindo. a poeira que flutua no ar, densa. só de existir aqui, eu sou feliz.

me apaixonei. de novo.

5.12.08

hiato.

(quando fez-se dia, o sol de lado deitava as sombras. o azul do céu me desafiava. vem brincar comigo, dizia. corriam indiferentes, lá fora, os paulistas. eu fumava, longa e pausadamente.
com uma camisa branca e fina, desfingia a minha nudez. caiam, pesados, os cachos por entre o lenço de sêda. toda a sensualidade borrada dos olhos pintados ontem, as olheiras a ornar os olhos. por entre os dedos, a alça da xícara, fumegando notas prêtas, e bergamota. no ar, as notas negras do piano, que toca sem nunca um fim, essa noite.)

30.11.08

doer de amôr.

em algum lugar do passado, eu amei todas as grávidas. e, ainda hoje. as mulheres-ovo atraem meus olhares na rua. são a perfeição. a divina perfeição. e as amo com toda a intensidade que se ama o perfeito-abstrato. o que não se pode tocar.
foi-se também o tempo em que as olheiras me atraíam. foi-se o tempo, ficou o desejo. mulheres pálidas, lânguidas, cansadas. aquela sensualidade roxa sob os olhos, os cabelos no rosto, o cigarro nas mãos trêmulas. tem uma beleza diferente. um silêncio, uma aura. noir. às vezes acho que é uma beleza que só eu vejo. só eu sei ver.

e agora, acho que estou pendendo de amôr. é assim. muito sentir, muito querer. sei amar uma cantora. uma atriz. um escritor. um pianista. o vizinho que finjo não ver, e me olha, e finge que não me vê.
eu amo todo mundo. desejo, o mundo. quem já vi e quem ainda vou ver. e já não ligo pros cabelos, cores, idades.
hoje, nada dói. porque há amor.

26.11.08

luane. o rosto vermelho do sol do dia, o rosto afogueado da corrida da noite. chuviscava, e corria. no meio da madrugada, era toda sonho: desejo, necessidade, vontade. subia as escadas, pra perto das nuvens. luane chegou num céu, sem estrêlas.

respiro. sorriso. a paz de estar em casa. a menina morava numa cidade de vidro. e, lá de cima, cada casinha era um lume, cada lâmpada uma estrela. e, se fosse sonho, não era tão bom. luane quase se morria de tanto prazer. de olhos, a girar. e então. bolou um plano.

que era passarinha avuadêra, ela já sabia desde que o tempo é tempo. mas, naquele tempo-espaço, ela queria era lançar-se no céu-de-giz. catou retalho, agulha e linha. teceu um par de asas, que tinha côr de sonho e gosto de gôzo.


avuou.


23.11.08

Mulheres de minha vida.



chove
chuva.


















amoras
secretas
(debaixodosguardachuvas)
.!




















[a vida é muita, a palavra pouca.
eu volto.]

12.11.08

ajoelho.
fecho os olhos, e finjo rezar.
não rezo, porque ninguém nunca me ensinou.

a saliva é ferro, puro.
a voz é vermelha, intensa.
chovem estrêlas, que me enchem a casa.

(num sono sem sonho, o passado desaba na minha cabeça. o teto, os fantasmas, as cinzas. o fracasso tem gosto de vitória.)

11.11.08

O céu nublado, a noite já se alonga. Respiro fundo. É bela, a rua da minha casa. Por vezes, acho que o peso da mochila pode cortar meus ombros. E rio. Descer a rua de casa, sozinha, virou um desábito. Coisa que muito me chateia, que é só em solidão que a rua transborda em poesia.
Sinto o vento em brisa, lambendo a pele em brasa. Duvido de antes. Houve alguma noite antes de hoje.? O barro no meu tênis velho, rasgado. 'Muitas noites, antes', ele me diz. A voz rouca, a pele queimada, as marcas: tudo aqui. Corrompendo tempo-e-espaço, meu passado coexiste em mim agora. Tudo em mim palpita.
Fecho os olhos. 24 horas antes, eu estava em cima da pedra mais alta. A insanidade fazia minha mão tocar deus, e deus existia. Deus era azul, com estrêlas. Deus tinha caule, folhas, raízes, orvalho. Deus, era tudo e nada, era a pedra, era cada um de nós. Era a fumaça, o liquido, o sexo. Profanodeus, era deus de verdade. A pedra fria me abraçava inteira, meu umbigo era cordão umbilical de deus. Eu, mãe; eu, filha. O mundo e eu num infinito, sem começo. Respirei fundo, e existir era simples.
O céu cheio de sol, lua, estrêla. De resto, era tudo vaidade.

~*

(felicidade demais assusta.?)

7.11.08

amôres brutos.

você vem quieta no meio da noite
sussurra ao meu ouvido
me arranca da cama.
durante horas eu sou tua
enquanto eu devia dormir
em te amo em segredo, sem que ninguém veja

acordo sem forças para o trabalho, mas eu vou
enquanto você dorme serena no travesseiro
você abusa de mim como se eu fosse a sua escrava
porque sabe que eu te amo
e que eu te amo tanto que eu nunca digo não
não importa o quanto seja necessário o não
eu sempre digo sim
e quando acaba, eu sempre quero mais
eu preciso de mais
porque eu tô viciada em você
você sabe que eu quero só você
só você e ninguém mais
você me faz acreditar que é só minha
quando se joga ao meu lado no meio da madrugada
mas eu sei e você sabe que é de muitos
enquanto a solidão me afoga no meio da noite

você se enrosca
vadia
entre outras pernas
entre outros braços
entre quaisquer pernas
e quaisquer braços
como uma puta.
mas quando volta
é minha doce amante
minha primeira namorada

você mente! friamente
eu me apaixono... loucamente
porque você é barata e bonita
me abraça quando tenho frio
e me beija a boca quando amo
e você me faz crer que eu posso tudo
quando você sabe, Palavra, que eu não posso nada
você se faz versos, Palavra, em minha boca
quando eu só queria um abraço.

a Palavra vem
ela sempre vem
mas só quando ela quer
e nunca quando eu peço

5.11.08

Ervilhas são verdes gotas. Pingam redondas, perfeitas. Da áurea perfeição, faz-se muitamente metades. Sólido degradé se enrosca numa fundura infinita, de prazer latente.
Deixo de ser organismo. Eu inteira sou dedos, pele, tato. O carmin de mim já não inspira volúpia. O carmin é desejo-de-carne, inteiro. O desejo tem verdecôr.
Num gôzo silencioso, reviro os olhos. Afundo dedos no íntimo verdejante do sabor escondido. Arfo. É doce existir. É doce ser tato, memória, desejo.

(o mistério da lingua coexiste na água-de-pular, e sal.)




- era dia de sonho. havia a vontade de Amelie Poulain. e, tinha na memória Charlie e Lola ( 'eu nunca, nunca mesmo vou comer tomate')

3.11.08

Pout-pourri.

Inspiro. Vejo as côres que me inspiram. Respiro. Solto ares de álcool, e alegria. Genuína. Rearranjo, em letras, os sonhos. Amo. Sonho amigos de perto, amigos de longe. Numa porção de fotos, eu vivo. Eu amo entre versos, eu rio. No Rio, eu vivo. De pedaços de sonhos, de vontade de amôres. Eu sou.

Eu, venho aqui pra dizer que sorriso hoje é lei. E que palavra-melancolia é isso. É todo dia. Que palavra só é bom se doer.


~~*


Ela ri. Eu sei, porque sei. Ela vive. Eu sei, porque viver a palavra é a mesma. Ela ama, porque o som é o mesmo. Divido a minha alegria, com ela. Que é alegria de sempre. Não ligo o meio, o tempo-espaço nunca me gostou, mesmo. Mas, eu quero dizer. Sorrio. Faz parte ainda do que me faz forte. E nuncanunquinha infeliz.




para Jaya, amiga lírica, devoradora de letras e companhia que quero pra sempre.

31.10.08

Falsa crônica da triste morte do desamor cultivado

Acordei. Doía da cabeça à garganta, jurei que esse maço era o último. Jurei. Doíam as pernas, como pesos, como mortos. Jurei fazer as tais massagens, passar menos horas em pé.
Levantei com a leseira que me é tão peculiar, fingi que as cobertas não me engoliam, mornas. Levantei - antes de estar atrasada!. O banho foi prazeroso, a descoberta ante o espelho foi lenta.
Mastiguei o gosto do amor sincero, que ainda fluía pelo meu travesseiro. Fluía. Não lembrei do teu rosto, gloriosas as horas todas sem tu. Evitei toda morte que ainda podia me causar: me safei. Das unhas fiz vermelho, das palavras fiz paixão, não deixei nada nos armários: levei passados, joguei memórias numa fogueira improvisada no meio do jardim. Eu te matei! ou matei o que de tu me matava em mim. Eu matei teu riso sincero e teu toque macio, que cortava feito limalha de ferro. Teu cheiro pensei que podia me asfixiar, não podia. Não, não pode mais.
Juntei as malas, juntei as dores, levei travesseiro e cachorro, palavra escrita e cantada, medo e coragem e força.
Remexi baús. Lembrei de quando minha menina ainda chorava escondida os teus desamores. Lembrei que antes da tua rede me botar em torpor, houve em você força que seguiu. Houve força inspiradora. Houve força que me levou, aos 18, estar onde queria estar - historiográfica. E ir aonde preciso: soltar asas, deixar voar. Minha casa agora é outra, que não de mãe.
Matei meu amor doente, morto está. Deixei aberta a ferida que me fez - ainda pulsa - aquela força quase bruta que me roubava com a poesia.
Foi mais cicatriz do que tatuagem. Ainda lembro. Não dói mais.
Bati a porta, girei a chave. Houve eco.

em fluxo inconsciente.



(lua em recomêços. lembrando do que já foi fim, e hoje é estória.)

27.10.08

em película.

A música, parecia música ambiente.
Um restaurante. Exótico. São muitas as cores, os detalhes são neutros. As cores, na verdade, se escondem atrás de um suspiro branco-e-prêto. O homem bebe, vinho. Olhos perdidos, na porta que não abre nunca. Não vemos seu rosto, seu cabelo apenas.
Rio. Brinco de ser o que não é. Releio. Eu, quero sair dessa cidade. Quero morar onde tem areia, mar. Parece bossa nova, é isso.
Abre a porta. Ela, sequer levanta os olhos. Reluta com o guarda chuva. Espana os respigos do casaco, com a mão do cigarro. Se pontilha de cinzas do tabaco. Bufa. Na sua bôca, tudo é dôce. Com graça, joga os cabelos para trás. Ao vê-lo, baixa os olhos. Esperava entrar deslumbrante, não uma menina perdida.
Na frente do espelho, de um jeito que nunca me pintei, me cubro de mulher. Os olhos, a boca, os cílios. Visto meu côrpo, inteiro, de meu côrpo. Amarro sobre os cachos que pintei o lenço prêto. As pontas tocam meus ombros. Esboço sorrisos. Ensaio olhares. Duas vezes, eu e Helena. Acendo o cigarro e, nua, vou pra janela.
Amassa o cigarro, uma fúria de fim-de-noite. Tira o casaco, sorri vagamente, para além do homem. A frase é amarela, 'Chuva me pegou'. Ele diz qualquer coisa sobre a beleza dela. Ela, suspira. (ele finge crer que ela sequer ouviu). Tira as luvas. Lança o mais lânguido dos olhares. Ele, no mesmo instante, sabe que seu esmalte carmin muito mais lhe importa do que a presença galanteadora do outro lado da mesa. Ele, é nada, perto dela. Cruzam os olhares. Ele, é nada, perto dela.
Poses. Angulo o pescoço. Meço os dedos, olhares longos, para o nada. Da minha beleza, só eu sei. Não ligo para as janelas, desfilo os seios nus, no parapeito. Aquelas, eu ignoro. Busco o telefone.
Bebe o vinho, e é linda. Tudo que faz é belo. Os movimentos que se desenham no ar, ao redor dos pulsos. As pausas. O modo como mexe o pescoço. Seus lábios grossos, os cabelos cheios e claros, a seda prêta que faz arco, no seu rosto. Brigitte é a sensualidade encarnada em cachos e melancolia.
Me arrasto. Arranco os brincos, o lenço, tenho vergonha de mim. Esfrego o rosto, a tinta escorre prêta dos olhos, me enfeia. É uma genuína feiúra. O oposto dEla. Eu sou a antiEla. Os olhos inchados, o nariz vermelho. Quando ela chora, tenho ganas de beijar-lhe a bôca. Quando eu choro, é de pena. Dó. O sinal de ocupado é tudo que ouço.
A rua tem névoa, e água. Debaixo do guarda-chuva, um passo incerto, a fumaça que exala. Vejo a tela, de dentro dos olhos dele. Brigitte anda, o impacto do passo movimenta o cabelo com graça. O impacto dela me mareja.
A música acabou.

25.10.08

lona rasgada, no alto.

Com grande pesar vim informar a morte do Palhaço. O bom-Palhaço padeceu, foi noite passada ou há mil dias? já não me lembro, eu já nem sei.
Padeceu, o Palhaço, porque era Cidade demais e riso de menos, desdor, despranto, desacalanto. Ninguém matava, ninguém morria! era só uma apatia. Um andar espectral de silêncio-solidão. Sem gargalhar de criança, sem cheiro de pipoca, sem lona furando o céu-de-estrêlas.
Vieram então, mais de mil palhaços, todos pro salão. De luto fechado, em seus panos rasgados (as Columbinas era rosa-e-carmin, era de mil-côres Harlequim). Vi um Pierrot chorar em soluços. Era o fim do carnaval. E a marchinha inundava o ar.
Eu pintei meu nariz, eu quis chorar. Se não tem palhaço tem o que, nessa vida.? Mas bem no meio da folia, pulou o Palhaço do caixão! eu juro porque vi. Era confete e serpentina. O seu sorriso pintado, o olhar caído. Piscou-me os olhos.

(vi por detrás uma menina, tinha olhos de contas e cabelo de mar. Puxou a manga do Palhaço e inundou de melancolia-poesia o não-ser.)

22.10.08

do circo, sem futuro.

há um medo surdo
como um baque.
como um soco, na cara.
i m p i e d o s o .
há o férreo gosto, na boca.

penso nos meus medos, quase infantis.
quando chove,
quando escurece,
quando penso em "ela",
quando tenho medo de não ver,
quando tenho medo de desistir,
quando quero virar um novelinho, em mim,
eu melancia chorosa e só num canto de um sofá cheio.

e então.
sinto o aconchego que dá brincar de gato, sob o sol
os pequenos prazeres,
a massinha,
o giz,
aquele tanto de olhares, da parede pra mim.

me sinto só.
e carrego as culpas todas.

17.10.08

Através do espelho - capítulos 13, 7, 42 e ∞

"(...)Luarenta, numa suave tarde de sol, comia jujubas. E então quis uma canção. Juan, brevemente, disse: coge el cabaquito, Jude. E tendo Jude provido-o de seu inseparável ukulele, tocou.
Meesha, indiana e terrorista, matadora cruel e sangüinolenta de mosquitos com biribinhas, bailou com Rringo, Jorge e Pablo. Todos inebriados pelo cheiro de torta de estrelas, que assava, em baixo do guarda chuva transparente, desenhado no castelo, pintado na parede.
E então um palhaço triste chegou, trazendo numa bola de neve - macuecos me mordan! - o inverno todinho. Voaram papeizinhos, dourados, e choveram coloridas bolas do céu.
Los Besoros correram, como porcos de uma arma. Voaram feito a Lucy.
Fugiram! Michetinha e Looa, montadas num grande cachorro prêto, que cheirava como meias suadas depois de um jogo com gols e bolas e mãos. Memérias capóticas se esqueceram dos campos de morango, para Eva. Se esconderam num colégio soturno e rezaram - espero que acreditemos!, pensaram. E então novenovenovenove vezes repetiram, para não esquecer.
Nesse minuto, Micha se lembrou dos lápis de cor que trazia. Usou, mais Lua, estilete para fazer a ponta, antes que houvesse tinta vermelha demais no chão, que atrapalhasse a passagem suculenta e sem sementes de Tangerina.
Borderline, a amiga querida, veio só para brincar.(...)"


para Mabel.


(é. acabaram as minhas palavras. enquanto elas não vêem, eu vou roubando minhas palavras de antes.)

2.10.08

calculou. mediu distâncias, apreendeu cheiros. ensaiou, mentalmente, cada movimento. olhou, não soube apreender a resposta. a pergunta era dispensável, forjou a resposta.
ignorou gestos.
um pé na frente do outro, decididos, os pés. os dedos, trêmulos, e firmes. fechados os olhos: no escuro não há pecado, não há segredo, não há mistério.

sêde.

do ímpeto do silêncio, rompeu o dessilêncio da respiração. seus mistérios encarcerados, à flor da pele. dobrou-se um milissegundo na eternidade de um arrepio. rolaram hipóteses pelo chão, encheram o ar, entorpeceram os sentidos.
um braço antes do outro, os olhos abertos-e-fechados, pra ver o que se vê, o que se quer ver.

16.9.08

o Casamento

Era um amor bonito, de uns bons anos. Marcaram o grande dia. O casamento.
Ela escolheu o mais lindo vestido; e foi com linha e agulha que bordou os sonhos todos no corpete.
Ele, era o fraque mais clássico que enchia seus olhos. O mais preto. Viu naquelas costuras firmes a mais profunda galanteza.
A diadema brilhava, feito estrelas.! Era tudo quanto havia de se realizar no caminho. Era princesa.
Artista, de cinema. Dos anos 30. Mocinho.! Tudo culpa das luvas brancas.
Com amor, ela escolheu a gravata mais sóbria. Com a honra do avô, lustrou os sapatos cor-de-noite.
Branco o sapato, de salto. Branco o véu. Era como olhar o manto da Virgem.

Eles esqueceram seus pecados.

Era o mais perfeito rosto, maquilado. Era o anjo branco, que lhe caía nos braços, para todo o sempre.!
Uma lágrima caiu. A beleza dos olhos virginais mais pareceiam os olhos de viúva. Jogou para trás o buquê, nunca mais lhe caíram flores nas mãos.
Ele se embebedou, noite após noite, no cheiro do álcool, no gôzo das outras. O mocinho cheirava mal.
A princesa sumiu, aos poucos. Debruçada nas panelas sujas, atrás das pilhas de roupas, embaixo do nome Amélia.
O galante virou marmanjo no sofá, cerveja na mão - que não cabia mais carinho - , o futebol no olho - que não entrava mais donzela.
Enfiou, junto com o corpete, os sonhos num saco, que jogou no maleiro do guarda-roupa. Comida pras traças, roído pelo esquecimento.

Só se veste de branco uma vez na vida.

9.9.08

foi quando, de súbito, acordei. ou foi o exato instante em que tomei consciência de mim. sei que eu era de um cansaço extremo. os meus sentidos fervilhavam. o olho não abrira, ainda. e tudo era vermêlho. prêto no vermêlho. o ar entrava sêco, violento. rasgava-me a narina, a garganta. afogava o pulmão. sofri. a boca era viscosa, e sêca. uma sêde tamanha, desesperadora. ousei abrir a bôca, correr a língua pelos lábios. eram de uma dureza de terra, inóspitos, incautos.
tentei me mover. a dureza do chão era muita. e o calor. minha pele era brasa, ardia. o sol me fazia sensível, a tudo. o calôr da pele eu tentava por tudo amainar. mas pele sobre pele, era o fôgo, só.

a solução da vida, era água. o mistério líquido.

espiei. uma fenda na pálpebra. numa fresta, o céu de um azul atormentador invadiu-me inteira, eu engoli pelos olhos o sol e o mundo tôdo. fechei depressa os olhos: foi lento demais. fecundada pelo céu, estava grávida do mundo.
pisquei muito, e longamente.
quando o olho abriu, era uma guerra de dois lados, um valsado de dois antigos desconhecidos. era gritar de um profundo azul, sem nuvens. e o caminhar resignado de um marrom poeirento.
e como se fosse perder os sentidos, a sêde, o calor, o ardor, passou tudo. nada incomodava. eu tinha uma fome profunda do horizonte. e horizonte não havia. enquanto correr eu pude, eu corri. o chão comia meus pés, me queimava. desesperei-me. quis ver, e não podia. era de pó e incerteza meu futuro.
quis chorar, mas eu nada tinha pra verter. eu olhei ao redor de mim, o sol iluminava tudo. secava tudo. o sol escorria de beleza, e feio era, triste.
o susto era tanto que o grito entalou e nunca que escapava. eu olhava bem pro meio de mim. eu via o mistério tôdo. o mistério de mim, o mistério do mundo. todo o mistério se desdobrava na minha frente. sem uma sombra, eu vi o horror da minha existência. eu queimava meus monstros e os gritos eram de horror, deles, e saíam da minha minha boca.
rasgou-se no meu rosto um riso, nefasto. expurguei meus pecados, e eu, mãe do mundo, perdoei tudo. o mundo, no meu ventre, existia porque existia eu.

eu, mundo. eu, deus: verteu água da palma da minha mão.

26.8.08

amôres brutos.

você vem quieta no meio da noite
sussurra ao meu ouvido
me arranca da cama.
durante horas eu sou tua
enquanto eu devia dormir
(eu te amo em segredo, sem que ninguém veja)

acordo sem forças para o dia
enquanto você dorme serena no travesseiro.

você abusa de mim como se eu fosse a sua escrava
porque sabe que eu te amo
e que eu te amo tanto que eu nunca digo não
- não importa o quanto seja necessário o não.!
eu sempre digo sim
e quando acaba, eu sempre quero mais
eu preciso de mais
porque você é vício em mim.

você sabe que eu quero só você
só você e ninguém mais
me faz acreditar que é só minha
quando se joga ao meu lado no meio da madrugada
mas eu sei e você sabe que é de muitos.

enquanto a solidão me afoga no meio da noite
você se enrosca
- vadia -
entre outras pernas
entre outros braços
entre quaisquer pernas
e quaisquer braços
como uma puta.

mas quando volta
é minha doce amante
minha primeira namorada...

você mente!
eu me apaixono
me perco.
porque você é barata e bonita
me abraça quando tenho frio
e me beija a boca quando amo
e você me faz crer que eu posso tudo
quando você sabe, Palavra, que eu não posso nada
você se faz versos, Palavra, em minha boca
quando eu só queria um abraço.

a Palavra vem
(ela sempre vem)
mas só quando ela quer
e nunca quando eu peço.



- e ainda que eu me arraste, ela não vem. são dias de lágrimas, e ela não me quer. enquanto tanto, eu espero. eu roubei de mim mesma, palavras do ano passado.

5.8.08

O homem é sal. A lágrima é sal, o sangue é sal, o gozo é salgado, suado. De tanto sal, o mar é homem.
Olhava sua humanidade brutal. Tão sensível, que era brutal. Seu ir e vir, seu sal. Seus mistérios encarcerados: sua onda. Era homem: de uma vastidão imensa, que em olhar para um ponto era perder uma vida inteira.
Tive desejo.
Eu era mulher, e desejava seu cheiro de homem. Sua força, seu abraço, seu sal.
Fingi indiferença, com ares de mulher. Deixei o pé, distraída. Tocou-me com o branco da espuma. Fiz que não senti. Lambeu as pernas minhas: era a volúpia do sal, frio. Me deixei ir. Arrepiou minha pele o toque sereno. O desejo velado. Tocou meu sexo, entre véus. O que velado era, a imensidão do céu não via. Turvavam as águas, eu fechava os olhos: no escuro não há pecado, não há segredo, não há mistério.
Eu não sabia nada. Eu via o que meu Homem Mar me deixava ver. E nem tudo eu via! Eu lhe era inteira, distraída, fingida. Fingia o acaso dos seios nus, o acaso dos lábios ávidos, o acaso do corpo oferecido.
Abri a boca, o caminho do ar era muito. O prazer era do ventre, e era o ventre que fazia a voz: o mais profundo gôzo era sonoro, era abafados pelo acaso do som, do sal.
Abro os olhos, me vejo nua, seca, muda. A lingua tinha sede de sal. (O mistério da onda é tanto, que eu tenho medo do mar.)





- pros poucos, porém queridos que vêm me ver, eu deixo um beijo. que o mundo cresceu demais, e eu não posso ficar aqui parada. outras férias virão. agora o tempo é de livro, papel, caneta.

31.7.08

sobre amor e isqueiros.

"que não seja imortal, posto que é chama
mas que seja infinito enquanto dure"
(vinícius, sobre seus isqueiros)


acho que todo mundo que fuma, ama o seu isqueiro. às vezes mais brutalmente que a mãe, ou o marido, ou o cachorro. e é sempre um relacionamento de posse. de uma posse doentia. todo mundo levanta e pergunta, no bar: "cadê o meu isqueiro.?" e o tempo vai passando, existe sempre um medo, uma apreensão constante. até quando ele vai ser seu.? até quando estará na sua bolsa, sempre que você remexer um bolso, nervoso.? você olha desconfiado os outros da mesa. qualquer um que acenda um cigarro com um isqueiro do tamanho e da cor do seu, é motivo pra levar a mão ao bolso, num movimento cego e assustado. se você não o encontra, pensa se vale a pena dar uma voadora naquele filho da puta que, com certeza roubou seu objeto de tão alta estima e paixão.
há ainda aqueles, que certos de que jamais deixarão o isqueiro pela forma natural, o fim da carga, desiludidos, passam a usar fósforos. fazem um ar demodé, degradé e tal. ensaiam sambinhas, desafinados, rindo. mas é em casa, quando vão acender na janela e usam 15 palitos que pensam (em segredo até deles mesmos, cheios de desejo.!) "merda de fósforo.! ai, isqueiro amarelo de meus pecados..."
outro tipo de desilusão, é pedir a brasa a alguém. você conclui, mentalmente, "ótima oportunidade de conhecer pessoas não tão estranhas: fumantes e que andam pelos mesmos lugares que eu." mas intimamente se sente um mendigo. um amante patético, rastejando por quem não dá bola, não te quer.
do outro lado, tem os fanáticos. a relação acaba, digo, a carga, e eles não aceitam. compram fluído. os amigos dizem "bom esse isqueiro, han.?" e você ri internamente: "só eu tenho o amor eterno". ainda que morra de medo do abandono. e então. se torna patético. se alguém, desiludido, precisa da sua chama, você acende o fogo e, antes mesmo que o outro possa tirar o cigarro da chama, puxa o isqueiro e o enfia no bolso. seu isqueiro.

a mais avassaladora das paixões humanas, a posse da natureza, a desgraça de nero.
o amor com 7 cm.



- apoio cultural: milani.

25.7.08

começou numa tarde fria. matou o trabalho, viu sessão da tarde. estava tudo bem, mas daí apareceu. debaixo do cobertor. o susto foi tanto que nem lembro se disse algo: botou a cabeça inteira de baixo da torneira, o choque da água gelada amenizou as coisas.
ufa, haha. um alívio falso, a risada falsa. tudo que tinha a declarar.
a experiência, ainda que breve, foi exaustiva. tentou dormir. até conseguiu. mas ainda no cochilo, sonhou. acordou num grito.
o que era aquilo? suava aos cântaros. pensou que talvez fosse mesmo melhor ter ido trabalhar. pelo menos não tinha tempo praquelas coisas.
ligou a tv, bem que tentou prender a atenção. mas o olho escapou pra janela: fazia uma tarde linda. antes que pudesse perceber, estava colado ao batente, tomado de um lirismo vertiginoso. foi na parede que saiu seu primeiro poema. sem nome, sem rima, sem métrica.


largou o trabalho, levou flores à mulher, brincou de rolar no chão, com os filhos.
perdeu-se, enfim.


~*


(foi coisa de bololeta.)

22.7.08

veio a onda, quebrou na praia. eu era onda, era praia.
era de ventania e tempestade. eu era o vento carregado, salgado, elétrico. era brisa morna de uma tarde laranja.
a infinitude do mar, a infinitude da areia. eu fazia o perder. eu fazia o afogar e o caminhar. a solidez da água, a leviandade da areia.
eu era sol, era lua.
era o diáfano e intocável.
o profano e vagabundo.
eu era eu e meus outros eus todos.
eu era o mar, o sal, o vento. era a onda e tôdo mistério acerca de si mesma.
(mas quebrou na praia. e o mistério tôdo se desfez, sou só de novo Luara, sem mistério nem curva nem atalho algum.)

15.7.08

um bicho. um bicho acuado. um bicho trêmulo.
na sombra a feiúra dói menos. no barulho, chôro rasga menos o peito.
uma tristeza clandestina, daquelas que não se pode chorar. e mesmo que se pudesse, não haveria meio. intangível demais para que seja sofrida.
se Pensamento pudesse ser contido, domado, controlado... ele se sabe indomável, maior que o mundo inteiro.
é que de tanta negação, monstro se alimenta de Palavra Não. ganha força, forma, desejo.
e se a minha força não for tanta.? se dou ao monstro, cedo ao encanto.
sabe como é.?
não, não sabe. ninguém sabe. porque a dor é minha e só minha e assim, feito eu, só eu sei sentir. é que eu sou bem mais forte que tu, que êle, que tôdo mundo. e sou muito mais pele enquanto todo mundo é armadura. e eu sangro. sangro inteira, verto sangue como a santa que verte mel.

é tudo mentira.

10.7.08

Pout pourri do abstrato

abstrato 1

já quis colar teu corpo num outro corpo porque sabe que seria mais feliz.?
que lá mora o que te preenche.?

quis deixar de ser o que sou, pra ser uma outra coisa.
(aí então, redonda, perfeita, lisa. ou antes, um ôvo)

~*

abstrato 2

tomar a consciência, tomar o céu de assalto.
tomar, beber, cambalear, respirar.
no ar.
voar.! amar.
ainda que crescer, brincar.

entre substantivo, adjetivo e tal e coisa, eu fico com o verbo. e a infinidade que se desdobra do prazer em érre.

7.7.08

solidões.

minha casa ficou vazia,
tinha êle uma solidão, que juntou com a minha, fez-se riso.
chegou ela, pra graça do seu ar
o outro êle, depois, pra encher a cama.

veio mais uma ela, tocar a superfície
e êle mais, pra mergulho sem pestanejar.

baralho, cerveja, cigarro, sexo, lágrima.

foi bom o barulho,
foi bôa a comida,
até o cheiro e a bagunça estavam bons.
mas estava aqui, fria e pegajosa, solidão, roendo feito traça.



(foi só hoje, lavando os restos de alegrias forjadas foi que eu vi. eu não tava sozinha não. e com a caneca na mão, a janela - constantemente - escancarada, foi que eu vi. amigo não é coisa pouca. e enche boneca de pano. bem demais.)

2.7.08

prozac não é balinha,

vazio nem sempre é solidão,
braveza nem sempre é ódio.
tristeza nem sempre é depressão.


eu não sei quem foi que inventou que ficar triste não pode mais. que a tristeza é o fim do mundo e contra o fim do mundo, toma prozac. toma prozac e fica feliz. e quem foi que disse que engolir essas coisinhas te faz feliz, hãn.?
no fim das contas, acho que eu sou triste e burra mesmo. eu não fico feliz comendo margarina. nem sou linda muito linda demais porque uso o xampu x. eu devia comprar um carro e ser feliz. e ganhar umas loiras altas. das tampinhas da minha cerveja nunca pularam umas mulheres seminuas fazendo cara de sexie.
é, eu não vou ser feliz com um cartão de crédito. e nem com prozac. então não me enche o saco e me deixa ser triste, sim.?

ps. na verdade, eu acho que é tudo culpa do consumo, sim. pode ser clichê, pode ser ai-ai-ai-como-sou-intelectual! mas é assim, pra mim. num mundo em que ter é mais importante do que ser e pra ter você trabalha tanto que nem tem tempo de ser relacionar com pessoas, que é grátis, você tem que se relacionar com coisas, que não são grátis. e aí, meu velho, você trabalhar pra pagar - e você já nem sabe mais o que. e os publicitários se encarregam de te convencer que o lado bom da vida tem garrafa, rótulo, tampinha e o caralho a quatro. aí você toma litros de refrigerante, pra ser feliz. e fica cheio de celulite. aí a revista te ensina que celulite é sinônimo de tristeza (e daí todo mundo já sabe... tristeza é sinônimo de depressão, tralálá). aí você paga os dois olhos da caras nuns cremes que tiram a celulite. mas esse era o dinheiro das férias.! aí você fica com a bunda lisa em casa vendo tv, se irritando em vez de tocar um foda-se na celulite e ir curtir um mar, um céu, um sol.
e daí é assim, fim. uma coisa é ficar triste e fim. outra coisa é pagar pra ser infeliz.





(veja mais seus sobrinhos, empine mais pipa, corra mais na chuva. que felicidade não dá pra ser em 3 vezes sem juros, cara pálida.!)

1.7.08

voyer.

a noite veio, eu quis ser dela. fez-se madrugada. o amor é intenso, densa palavra. fujo pela janela, as vezes são incontáveis, às vezes noto, anoto, reviso. até as 10, todas as luzes do banheiro ficam acesas. todos estão na sala (menos o 3º), todos de cortina fechada (menos o 4º). pouco mais, pouco menos das onze e meia, param os barulhos assustadores dos tróleibus. cinco e 35, em tôrno, eles voltam. é rápido, do ponto final até minha rua. (andei duas vezes, só. pra ir e voltar da tamandaré. faz uma volta numas ruas bonitas. -menti, foram três. andei um ponto, quando dormi no aclimação e desci no parque).
da janela eu vejo a antena colorida, da paulista. e tirando a recifense prêta, não tem ninguém pra conversar comigo. (e ela escreve bem a valer, mas não tenho ganas de ela, há tempos).

mastigo o dia.

tenho amor há tão pouco e medo há tanto. como é que amor incorpora, mêdo não.? será que é açúcar e óleo - e ágüeu.?
dobro os joelhos, é bom mandar no corpo, ouço os cachorros, estralo as costas.
cogito um cigarro antes de te acordar.
(são 5 e vinte e subiu um ônibus, pela rua do lado.- de certo desceu, que essa rua só desce.)



quando foi que dei pra achar o cotidiano tão belo.?

29.6.08

- eu torci o joelho,

, mas dessa vez ninguém veio me passar a matéria de ciências. nem trouxe deliciosas cartinhas patéticas, pedindo as minhas coisas (pois meu enterro era certo). dessa vez não tem desenhos no gesso, nem propagandas, nem nomes de amigos que não tenho.
torci o joelho, mas não tive festas no quarto.

mas da outra vez não tive que dormir de lado, porque a cama é pequena, mas o amor é grande. da outra vez, eu tive mão de mãe a me espalhar os medos, carro vermelho pra me levar pra casa. dessa vez paguei o carro e foi passarinho que me levou comida, na cama.

da outra vez, eu aprendi a chochetear. e dessa, fiz flôres. o tricô virou cachecol que vai virar presente, pra longe.

eu voltei a reconsiderar o que nem pensava mais. que a calçada dessa cidade garoenta não deixa andar quem tem em si debilidade. que ir e vir é presente, grande. que esperar do outro o que tem pra si, dói. a espera é uma angústia.
(que ficar longe do aquário mais é bom que ruim.)

20.6.08

Sabe quando é indiferente.? Então, tem-me sido indiferente. Tanto faz o dia da semana, segunda, sexta, domingo. Vivo os dias com a mesma inerte intensidade. Me são indiferentes as horas. Às 10 horas da manhã, às 6 da tarde, meia-noite. Nas horas todas eu quero dormir, e só. Eventualmente, tomar um homérico porre, fumar um maço de cigarro, engolir 5 ou 6 pílulas que me façam dormir.
Não quero ir para o lado de fora, mas não quero ficar só.

Eu espero tranquilamente,
sentada,
deitada,
dopada,
que as coisas mudem e deixem de ser hostis do lado de fora de mim.


(e enquanto não muda, enquanto me desagrado, escrevo furiosas cartas à prestadoras de serviço que me tiram a saúde.)

10.6.08

Wlaker.

1. Rolou na grama, rindo. Ela tem 4 ou 5 anos. E ele é seu primeiro amigo. Se aninha nas suas pernas morenas, faz um barulho que lembra um ronronar ou um latido. É um filhote lilás de wlaker.

2. - Mãe, posso levar sucrilhos.?
- Não, tem Wlaker em casa.

3. Baixa o cd do Wlaker pra mim.

4. Acendeu um cigarro. O seu humor estava dos piores. Pena para o mundo. Wlaker era impiedoso. Atirou no gerente do banco, a menina do telemarketing ainda está em choque.
Ei, não olhe para trás agora...
PEI.

chiado. tv fora do ar.






- o que é wlaker.?

9.6.08

Ode às manhãs

Um dia eu acho que eu vou dormir pra sempre. Não morrer, sabe. Só dormir tanto que vai ser pra sempre. acordar, eventualmente, para comer. E fazer xixi. E dormir.

~~*~~

Cena 1. Dia amanhecendo. Um bando de adolescentes caminhando em grupos para a escola. Uma mulher anda só, no contra-fluxo. Tem cara de sono e trejeitos típicos de uma ressaca.

Mulher:
Eu admiro o sol, e sua intensa coragem de milenarmente subir todas as manhãs e peregrinar céu afora durante o dia.
E depois, eu admiro vocês, estudantes do Brasil, que se levantam com toda a força e toda a coragem de guerreiros, marcham pra escolas com quilos de maquiagem, as suas roupas de marca, seu charme e graça vis.
Os velhos, eu admiro todos.! Em suas saudáveis vidas, acordando junto com as galinhas para suas caminhadas matutinas em nome da saúde. (acende um cigarro, cospe no chão)

Eu admiro essa vida, bela. Suja, a minha. Imunda. Mundana. Acordem cedo, ó cidadãos de bem.! Que meu café preto eu tomo depois do meio-dia.

Cena 2. Tira a roupa, se joga na cama, geme de prazer. Dorme, enfim.

7.6.08

Cores que não sei o nome ou A vida anda - ou não.

caramba, há quanto tempo eu não passava uma sexta sozinha em casa, refém da minha mente maníaca.


~~*

Frustrada.
Nunca gozou.
Devia ter casado com o cara que gostava, mas teve que casar com o primeiro.
Bem resolvida. Mas queria um príncipe.
Acha que o sapo é o príncipe.
Frígida.


A escada rolante desce e eu a olho de baixo. É incrível a facilidade com que analiso sexualmente todas as mulheres que passam. Virgem!, eu disparo em pensamento. Não faz sentido. Mas as minhas análises só têm mulheres com problemas sexuais e homens viciados em sexo. Ou que nunca beijaram. É bizarro, espero que as minhas previsões nunca estejam certas.

O cara entrou. (Quer uma mulher como a mãe, foi a análise antes de começar o parágrafo de Pablo). Sentou-se. (quer a gostosinha do emprego, a doentiaMente, mas sabe que ela tem um namorado bombado. Mas ela deixaria o gostosão para ficar com ele). Levantou-se, sentou entre uma menina (acabou de descobrir que gosta de beijar amigas no escuro) que viajava de costas para o caminho (e eu também), e uma mulher, seus vinte e tantos (mal resolvida...) que olhou. (e pensou assim: esse cara ta me olhando. panaca. sabia que meu cabelo ia ficar muito bom, assim...). E ainda que ela disfarce, ela quer que ele olhe. Ele olha (cara machista, meu...será que ela tá dando mole?).
Me concentro no livro.
- será que sou tão maníaca que acho que todo mundo é doido também.?

Cogito digitar um número aleatoriamente no celular, discar, perguntar se quer trepar doidamente. Procuro o maço, lembro que parei de fumar.

o tempo passa. a vida anda cretina.

4.6.08

Sobre os mistérios do Universo ou O inatingível

sabe quando você abre a geladeira, tem meio limão e meia cebola no lugar dos ovos?
uma garrafa de água quase vazia e muito gelada? - e faz um frio do cão.
tem um prato vazio que quase parece decoração.
e um potinho, na última prateleira. você olha. imagina quem foi que deixou um incrível pedaço de pudim de leite. quem é que ia esquecer uma torta de queijo tão deliciosa. sabe, até, que se for bolo de cenoura com calda de chocolate você não deve comer, que certamente tem dono.

[...]

e então. com o cuidado de quem tocaria a mulher amada na noite primeira, você pousa os dedos na tampa. sente o frio, sente o calor das pontas escorrer para a tampa azul e quadrada. te emociona tanto, que você ajoelha (nessa altura, os seus olhos já estão a ponto de escorrer). você não sabe o que esperar, a respiração erra. você olha com desprezo aquela luz pálida, gelada: agora você tem um tesouro inigualável em mãos. homem nenhum fez descoberta assim antes. você merece a capa do NYTimes. e sabe disso. você planeja comer quente, um pedaço. e o outro frio. o pote é pequeno, mas seu conteúdo não acaba jamais, você sabe.
trêmulo, levanta a tampa. semicerra os olhos, para apreciar o aroma - será doce? cítrico?

[...]

o inacontecível, o intangível acontece. no cheiro - você não acredita. parece um feijão. ou uma sopa de alguma coisa. levemente marron. levemente verde. nas paredes do potinho, um caldo branco, viscoso. você, num último impulso, num arroubo quase brutal cheira, a fim de provar que é um iguaria. quando o estômago parece querer saltar, é com furia que encaixa a tampa e joga na última prateleira, bate a porta, se pergunta se foi tão cruel, a ponto do universo todo conspirar contra.

- vai dormir com uma limonada de meio limão e água gelada (lavou o suco no vidro sujo de açúcar).
naquele segundo último antes do mais profundo sono, lembra de jogar fora aquela gosma.

27.5.08

olhando as fotos, eram tantas.
cadê eu.? eu, não há. nem lua, nem Luara, nem coisa nenhuma. como dizer.? não me prendem as fotos, me prendem muito mais os momentos, as lembranças.
não tenho tantas ganas pela minha imagem no papel fotográfico. (parece quase um crime, um não gostar das pessoas, mas não. é só uma extrema ausência da necessidade de me ver pra sempre lá.)

- quando eu deixar de ser, fica mais fácil me deixar partir se não tiver a minha imagem prendendo sentimentos, lembranças.

22.5.08

e agora.?

dói mais o amor
ou o não saber amar
como se é amado?

se eu soubesse te dizer o que fazer pra todo mundo ficar junto...!

8.5.08

deu uma agonia, sabe?

tudo que é sólido desmancha no ar, Ele disse. e nem sei se o amo tanto assim. acho que nunca amei. eu vou parar de fingir.

(só não vou parar de mentir porque se não fosse a mentira não era a Luara.)

será que eu vou aceitar que ser eu não muda nada, só dificulta "ser"? será que eu vou deixar de ter medo, deixar de chorar, deixar de fugir?

anseio.



como quem constróis estradas e não anda.

5.5.08

Volta e meia me toma uma estranha sensação de não pertencimento. Não, eu não estou no lugar certo. Me enfiei em vidas que não são minhas, quis desenhar amôres que não são meus. Essa foto, não, ela não tem que ter eu. As unhas roídas, as dps, a pouca idade, o muito peso. A pouca personalidade, o excesso de mentiras. A falta de viagens, o excesso de drogas. Os amigos pra-sempre, que de repente não são mais, os amores eternos que de repente são pó, o vital que de repente é esporádico.

Essa cidade. Ela já não me ama mais, eu não posso mais dormir com ela todas as noites. E eu nem tenho forças para deixá-la. Eu vou continuando aqui, do jeito mais fácil, mais covarde. Queria ser tudo aquilo que se espera da filha, da sobrinha, da neta. Queria ser exatamente o que se espera de uma aluna da USP. Queria ser o que se projeta pra namoradinha.

Queria deixar de querer tanto ser altamente Luara. Pra ser um pouco mais desejável.


(mas só volta e meia)

hoje a tristeza não é passageira.
r.r

16.4.08

Consumir e gozar! E não estocar!


Carin Mofarrej

Setenta empresárias e socialites se reuniram numa mansão do Jardim Europa, na semana passada, para ouvir uma palestra do "filósofo do luxo" Silvio Passarelli, coordenador de MBA da Faap sobre o tema. Entre flutes de Chandon rosé, cumbuquinhas de bobó de vieira e camarão e copinhos com salmão, relish de beterraba e ovas, elas assistiram à palestra "O Seu Tempo É o Seu Luxo", em que o economista, a convite da revista "Wish Report", fala sobre o tempo, o marxismo, o hedonismo -e o prazer inigualável do consumo sem grilos ou culpas de qualquer espécie.

A predominância do pensamento marxista impregnou o século 20, disse o professor. "Depois da superação do materialismo histórico, todos viveriam felizes e iguais. E eu me pergunto: como, se um tem cabelos loiros, o outro é moreno; um tem Q.I. de inteligência bruta maior, outro tem inteligência emocional?"

Já o atual liberalismo, diz, inaugurou a era do padrão individual de escolhas. Mas é preciso tempo. "De nada adianta acumular os bens se não temos tempo para usufruí-los", disse o professor. "É isso mesmo! É isso mesmo!", gritava, batendo palmas, a empresária Yara Baumgart, seguida pelas demais mulheres presentes. "Será a grande batalha do século 21: consumir e gozar, consumir e gozar! E não estocar", completava Passarelli. "Sabe a Imelda Marcos [ex-primeira-dama das Filipinas] e os 500 calçados? Será que ela os conhecia a todos? Será que estabeleceu com cada um deles uma história pessoal?" A anfitriã, Carin Mofarrej, da rede de hotéis, pede o microfone: "Eu considero um luxo fazer as coisas que você tem vontade. Fui fazer um curso na FGV, já com seis filhos, eles diziam: "Mãe, você é louca?". Mas aprendi, remocei. Nem sempre o luxo significa... óbvio, se a gente puder ter o melhor relógio, a melhor bolsa, a gente gosta. Mas usar uma sandália havaiana, em casa, é um luxo que só a idade te dá".

O microfone passa para a empresária Dayse Gasparian, que recomenda que as pessoas expressem seus sentimentos. "É preciso chegar em casa e dizer ao marido: "Eu te amo!"." Rosângela Lyra, da Dior, conta que vai sempre à praça da Sé, de madrugada, cuidar "dos meninos que cheiram crack". E completa: "As pessoas me perguntam: "Como você consegue fazer tanta coisa?". É simples. Tomei uma medida radical: não ver televisão".

Passarelli insiste na idéia de que as pessoas têm que "melhorar o seu estoque" de tempo. "Vamos perder a vergonha quando alguém perguntar: "O que você vai fazer amanhã?". Nada! Eu comprei um carro novo e vou passar o dia dedicado a esse brinquedo que eu me proporcionei. É preciso tempo para que o projeto emocional que o levou a adquirir aquele bem possa ser explicitado", prosseguiu o professor.

Para ele, é preciso "gradativamente trocar compromissos inúteis pelos úteis na busca de uma nova ética de consumo, que não seja marcada pela condenação de um produto supérfluo. Ora, quem tem condição de dizer o que é supérfluo? É supérfluo para ele, mas pode ser a diferença entre felicidade e tristeza para outro".

Fim da palestra. Carin serve sucos de uva com carambola e de maracujá com figo. A conversa continua em torno da mesa de doces -salada de frutas vermelhas, tortas, copinhos de merengue de fruta-do-conde com marshmallow brulée. Algumas das convidadas elogiam a serpente de ouro branco e safiras que Carin carrega no pulso. "Agora, sem culpas", diz ela. O evento chega ao fim.


BERGAMO, Monica. In:Folha de S. Paulo

Uso errado de conceitos, invensão de teorias alheias. Uma palhaçada, em suma. Escrevo, assim que digerir.

14.4.08

Pout-pourri do Carnaval ou Novidades Antigas I

Esse post era para ter saído em janeiro, ainda. Mas, com um leve atraso, sai agora, quase no meio de maio. Aqui não é a Bahia, mas tem carnaval fora de época - e um humor apuradíssimo, perceba.
É que vinha vindo aquela coisa toda carnavalesca e eu ainda sou muito chata e então não, eu não gosto de micareta nem de Globeleza nem de nada disso. Mas percebi que o tema é um tanto comum no meu radinho. resolvi ver se dá samba, meus sambas todos que tem carnaval. A ver.


moro num país tropical
desfilando alegrias e cores, energia, magia e dores
e os esplendores desta alegria.

deixei a dor em casa me esperando
e as avenidas fervendo suadas,
cada paralelepípedo dessa cidade vai se emocionar.

meu coração é igual,
canta meu coração, a alegria chegou
tira da garganta aquele grito que entala:
o que você pedir eu lhe dou

quando ouvi passar o bloco eu não resisti,
em retalhos de cetim eu dormi o ano inteiro
como fui feliz aquele fevereiro!
todo carnaval tem seu fim,
não vou deixar que a cinza dele suje meu quintal.

há meros devaneios tortos a me torturar




- ainda vou ser muito high tech e fazer uma coisa bem legal.

8.4.08

(contra-)Senhas: a cidade e seus símbolos I

cidades vertiginosas, edifícios a pique,
torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais

Dante Milano. Jornal de Poesia.


Queria escrever essas idéias há tempos. Mas me faltava ganas. E, bem, agora...
Me assusta o tanto de informações desnecessárias que bombardeiam meus dias. "Antes de entrar espere que os outros saiam". Pôxa vida. Me parece um tanto óbvio que você vai ter mais espaço dentro do metrô se quem for descer na estação já estiver do lado de fora. "Não segure as portas, isso provoca atraso em todos os trens". Não me parece estupidamente divertido machucar os braços tentando segurar a porta aberta: se os metrôs circulassem mais rapidamente com mais trens, é claro que a lotação seria bem menor. E, assim, seria desnecessário segurar portas que se fecham antes que você possa entrar. E se eu fosse falar só do metrô, eu podia escrever um tratado.
E os semáforos? Pedestres furam os sinais a todo momento, correm, se arriscam. Automóveis por sua vez - creio que o motorista perca instantaneamente a sua humanidade sobre 4 rodas - querem chegar. A qualquer lugar, contanto que seja rápido. Estupidamente rápido. Motoristas-monstro matariam todos os pedestres e ciclistas, se pudessem. Ainda que isso incluisse a si mesmo, até mês passado. Não importa. A cidade é dos motorizados. E, digo mais, dos motorizados particulares. Que ônibus devia virar pó. E aquele maldito corredor - no qual os mais inteligentes sempre podem entrar e ir muito mais ligeiramente -, idem.
Os exemplos são infindáveis. As marcas que nos atacam a todo momento. As idéias vendidas de beleza, sucesso, felicidade num pote de margarina, num creme de cabelo, num carro do ano. Os medos incitados de sair, de cair, de ser, de pensar. A massa. Desindividualização.
Quem me conhece, já deve estar cansado desse meu discursinho sem fundamento, sem teoria do auto-governo. Mas não me canso de achar que sim, cada um tem auto-governo em si e que basta que isso não seja tão completamente morto pela sociedade que incapacibilita o indivíduo de pensar por si e saber dos limites de si e sua necessidade para o outro, a forma de agir não-egocentrista, que tirar vantagem em tudo só vale se a vantagem é pro bem comum. E nunca é.
Embora pareça estúpido, eu acredito nisso.