Acordei. Doía da cabeça à garganta, jurei que esse maço era o último. Jurei. Doíam as pernas, como pesos, como mortos. Jurei fazer as tais massagens, passar menos horas em pé.
Levantei com a leseira que me é tão peculiar, fingi que as cobertas não me engoliam, mornas. Levantei - antes de estar atrasada!. O banho foi prazeroso, a descoberta ante o espelho foi lenta.
Mastiguei o gosto do amor sincero, que ainda fluía pelo meu travesseiro. Fluía. Não lembrei do teu rosto, gloriosas as horas todas sem tu. Evitei toda morte que ainda podia me causar: me safei. Das unhas fiz vermelho, das palavras fiz paixão, não deixei nada nos armários: levei passados, joguei memórias numa fogueira improvisada no meio do jardim. Eu te matei! ou matei o que de tu me matava em mim. Eu matei teu riso sincero e teu toque macio, que cortava feito limalha de ferro. Teu cheiro pensei que podia me asfixiar, não podia. Não, não pode mais.
Juntei as malas, juntei as dores, levei travesseiro e cachorro, palavra escrita e cantada, medo e coragem e força.
Remexi baús. Lembrei de quando minha menina ainda chorava escondida os teus desamores. Lembrei que antes da tua rede me botar em torpor, houve em você força que seguiu. Houve força inspiradora. Houve força que me levou, aos 18, estar onde queria estar - historiográfica. E ir aonde preciso: soltar asas, deixar voar. Minha casa agora é outra, que não de mãe.
Matei meu amor doente, morto está. Deixei aberta a ferida que me fez - ainda pulsa - aquela força quase bruta que me roubava com a poesia.
Foi mais cicatriz do que tatuagem. Ainda lembro. Não dói mais.
Bati a porta, girei a chave. Houve eco.
em fluxo inconsciente.
(lua em recomêços. lembrando do que já foi fim, e hoje é estória.)