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2.7.08

prozac não é balinha,

vazio nem sempre é solidão,
braveza nem sempre é ódio.
tristeza nem sempre é depressão.


eu não sei quem foi que inventou que ficar triste não pode mais. que a tristeza é o fim do mundo e contra o fim do mundo, toma prozac. toma prozac e fica feliz. e quem foi que disse que engolir essas coisinhas te faz feliz, hãn.?
no fim das contas, acho que eu sou triste e burra mesmo. eu não fico feliz comendo margarina. nem sou linda muito linda demais porque uso o xampu x. eu devia comprar um carro e ser feliz. e ganhar umas loiras altas. das tampinhas da minha cerveja nunca pularam umas mulheres seminuas fazendo cara de sexie.
é, eu não vou ser feliz com um cartão de crédito. e nem com prozac. então não me enche o saco e me deixa ser triste, sim.?

ps. na verdade, eu acho que é tudo culpa do consumo, sim. pode ser clichê, pode ser ai-ai-ai-como-sou-intelectual! mas é assim, pra mim. num mundo em que ter é mais importante do que ser e pra ter você trabalha tanto que nem tem tempo de ser relacionar com pessoas, que é grátis, você tem que se relacionar com coisas, que não são grátis. e aí, meu velho, você trabalhar pra pagar - e você já nem sabe mais o que. e os publicitários se encarregam de te convencer que o lado bom da vida tem garrafa, rótulo, tampinha e o caralho a quatro. aí você toma litros de refrigerante, pra ser feliz. e fica cheio de celulite. aí a revista te ensina que celulite é sinônimo de tristeza (e daí todo mundo já sabe... tristeza é sinônimo de depressão, tralálá). aí você paga os dois olhos da caras nuns cremes que tiram a celulite. mas esse era o dinheiro das férias.! aí você fica com a bunda lisa em casa vendo tv, se irritando em vez de tocar um foda-se na celulite e ir curtir um mar, um céu, um sol.
e daí é assim, fim. uma coisa é ficar triste e fim. outra coisa é pagar pra ser infeliz.





(veja mais seus sobrinhos, empine mais pipa, corra mais na chuva. que felicidade não dá pra ser em 3 vezes sem juros, cara pálida.!)

9.6.08

Ode às manhãs

Um dia eu acho que eu vou dormir pra sempre. Não morrer, sabe. Só dormir tanto que vai ser pra sempre. acordar, eventualmente, para comer. E fazer xixi. E dormir.

~~*~~

Cena 1. Dia amanhecendo. Um bando de adolescentes caminhando em grupos para a escola. Uma mulher anda só, no contra-fluxo. Tem cara de sono e trejeitos típicos de uma ressaca.

Mulher:
Eu admiro o sol, e sua intensa coragem de milenarmente subir todas as manhãs e peregrinar céu afora durante o dia.
E depois, eu admiro vocês, estudantes do Brasil, que se levantam com toda a força e toda a coragem de guerreiros, marcham pra escolas com quilos de maquiagem, as suas roupas de marca, seu charme e graça vis.
Os velhos, eu admiro todos.! Em suas saudáveis vidas, acordando junto com as galinhas para suas caminhadas matutinas em nome da saúde. (acende um cigarro, cospe no chão)

Eu admiro essa vida, bela. Suja, a minha. Imunda. Mundana. Acordem cedo, ó cidadãos de bem.! Que meu café preto eu tomo depois do meio-dia.

Cena 2. Tira a roupa, se joga na cama, geme de prazer. Dorme, enfim.

8.4.08

(contra-)Senhas: a cidade e seus símbolos I

cidades vertiginosas, edifícios a pique,
torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais

Dante Milano. Jornal de Poesia.


Queria escrever essas idéias há tempos. Mas me faltava ganas. E, bem, agora...
Me assusta o tanto de informações desnecessárias que bombardeiam meus dias. "Antes de entrar espere que os outros saiam". Pôxa vida. Me parece um tanto óbvio que você vai ter mais espaço dentro do metrô se quem for descer na estação já estiver do lado de fora. "Não segure as portas, isso provoca atraso em todos os trens". Não me parece estupidamente divertido machucar os braços tentando segurar a porta aberta: se os metrôs circulassem mais rapidamente com mais trens, é claro que a lotação seria bem menor. E, assim, seria desnecessário segurar portas que se fecham antes que você possa entrar. E se eu fosse falar só do metrô, eu podia escrever um tratado.
E os semáforos? Pedestres furam os sinais a todo momento, correm, se arriscam. Automóveis por sua vez - creio que o motorista perca instantaneamente a sua humanidade sobre 4 rodas - querem chegar. A qualquer lugar, contanto que seja rápido. Estupidamente rápido. Motoristas-monstro matariam todos os pedestres e ciclistas, se pudessem. Ainda que isso incluisse a si mesmo, até mês passado. Não importa. A cidade é dos motorizados. E, digo mais, dos motorizados particulares. Que ônibus devia virar pó. E aquele maldito corredor - no qual os mais inteligentes sempre podem entrar e ir muito mais ligeiramente -, idem.
Os exemplos são infindáveis. As marcas que nos atacam a todo momento. As idéias vendidas de beleza, sucesso, felicidade num pote de margarina, num creme de cabelo, num carro do ano. Os medos incitados de sair, de cair, de ser, de pensar. A massa. Desindividualização.
Quem me conhece, já deve estar cansado desse meu discursinho sem fundamento, sem teoria do auto-governo. Mas não me canso de achar que sim, cada um tem auto-governo em si e que basta que isso não seja tão completamente morto pela sociedade que incapacibilita o indivíduo de pensar por si e saber dos limites de si e sua necessidade para o outro, a forma de agir não-egocentrista, que tirar vantagem em tudo só vale se a vantagem é pro bem comum. E nunca é.
Embora pareça estúpido, eu acredito nisso.