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19.11.12

O zoológico imaginário (ou Como Freud parou de fazer sentido pra mim)

Não sei se é a idade, ou a responsabilidades, ou as contas ou a saudade. A verdade é que quanto mais passa o tempo, menos culpa minha mãe tem. Claro que sempre será culpa dela, para o bem ou para o mal, mas parei de culpá-la pelas minhas próprias frustrações (beijos pros infinitos analistas).
Uma das culpas aleatórias que mais atribuí a minha mãe-preta foi por nunca ter tido pets. Eu sempre quis um cachorro. E nunca tive um. Hoje eu de fato entendo que seria um inferno uma criança (depois uma adolescente) num apartamento com um cachorro. Gatos fazem cocô na areia, tomam banho sozinhos, não exigem carinho e nunca saem pra passear e já não é fácil. 
Mas eu só sei disso agora.
Exumadas as culpas, ao que interessa: ao longo dos anos, eu fui criando um zoológico imaginário. Não contaremos os dinossauros, e a fase em que eu tinha plena certeza de que seria bióloga um dia para encontrar os tais répteis. Lembro quando era bem pequena, assisti Meu amigo Panda e tudo que eu mais queria na vida era um pandinha (anos depois, já crescida, eu e mãe ganhamos dois bambuzinhos e seria deselegante negar que achei ser esse o momento exato pra adotar um panda). Sem pandas, tampouco cachorros, eu tive um peixe dourado, o Pixe, e muitos outros peixes depois. Mas amor de peixe é esbugalhado, e eu era só uma menininha. O mais estranho de tudo, é que por anos morei na mesma casa que o Linus, o cachorro que passou a vida preso num cercadinho de 1 x 1m, sem nunca ter encostado a mão nele. Hoje tem a Amorinha e o Eros, meus amores incondicionais, mas o zoológico já está feito.
Além de um blackbird/ frango/ poba e um elefante tatuados, eu tenho uma infinidade de pelúcios: um cão teórico socialista, uma vaca-hipopótama de uma pata só, um urso chocolate, um tarepanda. Um tatu de argila, um gato de madeira, um elefantinho roxo florido, infinitas joaninhas, uma girafa de pois, tantas roupas e bijuterias com temas animais quanto uma criança de sete anos. Além disso, a minha eterna vontade de pegar os insetos com a mão e a tristeza pelo vôo insistentes dos bichinhos; e atualmente como defensora dos insetos contra as caçadas do Eros. 
E que tem isso? 
Não sei. Mas é um zoológico lindo. E esses bichos, mainha ama todos.


P.S. Nunca li Freud nem nada, era só pra ficar com um nome chiquetoso. 

12.10.12

Casa.

fecha-se a porta do bar, os trôpegos saem.


- Olá, mundo. Ou você roda, ou eu estou louca. Olá, loucura, quanto tempo! suspiro. As belas mulheres continuam aqui, as doces amizades também. O céu é ainda brutalmente azul, e o sorriso ainda sai espontâneo.

canta na rua vazia, e dança acompanhando o passo: Bom dia, mundo, é hora de dormir.

infinitas escadas: (O mundo acabar, 
a noite ter seu derradeiro fim. 
Sem uma saideira. 
Beber a cama, 
as nuvens acumuladas sobre o céu de cetim. 
Um trago dela 
um trago dele
 e fim.)

23.9.12

Cinematográficas #01

Hoje acordei e pensei: se a Audrey se vestia assim, o que me impede?
Me vesti de beatnik.



(não saí de casa.)

4.7.10

Sobre os medos.

Não sei como era quando eu era pequena, mas desde que me lembro por gente, eu tenho muito medo. Medos variados, de coisas diversas. Tinha um tempo que eu tinha medo de mortos e de espíritos. Depois eu tinha medo de ser lésbica. E foi aí que meus medos começaram a se refinar (O Houaiss diz, entre outras coisas, que refinar é tornar mais apurado, mais requintado; ou tornar mais forte e intenso).
E digo refinar porque foi isso mesmo. Meus medos são muito sólidos, muito senhores de si. Sim, porque eles quase são independentes de mim. E muito exatos. Não tenho medo de ser assaltada, é ruim, mas não tenho medo. Medo mesmo eu tenho de ser seguida, por exemplo. Porque inclui o outro, e o outro me dá um medo abissal (Segundo o Houaiss, de novo, abissal é o que aterroriza, está coberto de mistério, indecifrável; mas ainda diz respeito a abismo). As intenções, o livre arbítrio, essas coisas todas. Isso influidiretamente nas relações que quero estabelecer (mas isso não vem ao caso).
Mas o que mais me incomoda é fato de não ter meus medos respeitados. E o melhor exemplo disso é o medo vertiginoso que tenho de cachorros. Já foi muito mais intenso, e hoje consigo até acarinhar um cão ou outro. Mas isso não muda a minha posição, que eu sei qual é. As pessoas tentam me convencer do contrário: 'ah, ele não morde nem uma mosca, ele é superbonzinho'. Sorte a sua, eu não moraria com um quadrúpede assassino e fico feliz que você também não. Mas QUANDO foi que eu disse que eu tenho medo de sermordida pelo seu monstrinho? Eu tenho medo é da existência dele. Os dentes são só umaconsequência, que vem com todo o conjunto. Eu tenho medo das unhas, do rabo, do nariz molhado, dos latidos, dos ganidos, do pêlo grosso, das pulgas. Eu tenho medo do cão inteiro, mesmo com uma focinheira, ou mesmo de um cão sem boca. Respeita?
Ainda assim, esses medos nem são os piores. Tem ainda os medos que devo curar, porque mudam minha vida. Eu não gosto de sujeira. Em geral, tendem a confundir sujeira combagunça. O que, obviamente, é descabido. Não gosto de estar suja. E que isso tem a ver com os livros espalhados pelo quarto, a toalha molhada em cima da cama, mil bitucas de cigarro em todos os cantos? Não entro de sapatos no meu quarto, porque a rua é suja. Não gosto de encostar em pessoas no ônibus; e passo álcool quando encosto em mesas,corrimãos, transportes públicos. Já pensaram quantas pessoas espirraram na mão e a limparam ali? Não, obrigada, só quero os germes das pessoas com que faço sexo, e isso é o bastante. E me dou ao luxo de roer minhas unhas porque sempre estão minimamente limpas (mais limpas que os copos de bar, pode apostar nisso).
E tenho medo de ser abandonada. Mas isso nem os comprimidos vão resolver.

25.3.09

[ v i n t.a g e ]

Quando deu por si, estava ali. Parada à porta. Não se lembrava do caminho que havia feito, só se lembrava sempre de fugir das portas. E lá estava. Em frente a uma porta. Meio sem jeito, sem poder ir pra outro lugar, bateu.
- Eu te esperava.
A jovem que abriu a porta, parecia cansada, mas sorria. Qualquer coisa de familiar naquela sala, com tantas moças parecidas, com tantas crianças de mesmo sorriso.

- Parecia que você demorava...!
- Eu avisei que vinha?
- Nem precisava.

Estava confusa. Não sabia aonde estava, nem o que tinha feito, por merecer. Olhou pela janela, e a casa era toda torta. parecia tomar conta de mil caminhos. Aliás, ela via pouca coisa que a casa não cobria.
As crianças eram estranhas. Tinham qualquer coisa de familiar, e um olhar opaco, um sorriso perdido, estavam lá, n'outros caminhos, não na sala. Umas meninas mais velhas odiavam tudo, isso estava estampado. E agora, essa última. Um sorriso de perdão, como quem entende a dor, e sabe fazer diminuir.
As fotos, os brinquedos, uns baús bem pequenos, cheios de segredos, enfiados pelas sombras. As cores. A casa parecia recém-pintada, as cores pareciam velhas, mas ainda bonitas. Tocava uma infinidade de músicas, simultâneamente. Mas, elas ornavam no conjunto. Era a maior casa que já vira, ainda que vista de certos ângulos, fosse não maior que um quartinho de fundos.
Livros forravam as paredes, tapetes se sobrepunham pelo chão. Ela SABIA que coisas ali eram irreais. Mas tudo era, com a licença maior de ser-sem-razão.

Chegou como um susto, como um estupor. Estava na casa de seus dias, sozinha. Levando a enorme carga de sua ultra-existência. Soube que carregaria cada uma delas; em seus braços, suas costas, arrastando pelo chão.
Enquanto houvesse casa.

--
Foi quando abri minha porta de destino, aceitei meu passado. Dei a mão a tantas de mim, que sempre me esperam chegar.

19.3.09

[vintage]

2000 foi o pontapé inicial. Antes, era tudo hipótese, tudazul. Antes, era bom.
Sucedeu-se 2001. O poço.
2002 foi o ano do desarmário. Tantas portas de que saí, eu nem me lembro mais.
2003. O ano que não sobrou nada. Perdi até o que não tinha nuncamente achado.
2004 foi anossó. Só eu sei, das esquinas por que passei. Só eu sei.
De 2005, rojo, eu sinto falta. Meu eterno verão de 68.
2006, o ano sem ano. O maior hiato. A maior transição, o ano que não foi ano. Foi passagem.
Em 2007, foi tudo o nôvo. Não repetiu-se uma vírgula.
2008. Unfair.
2009. doismil-enóve. Cigana, latina, cativa.

11.3.09

[ l a c u n a ]

não te dizer o que eu penso
já é pensar em dizer.
(e o esforço pra
lembrar é a vontade de esquecer.)

não foi de propósito. beijou cada uma das bocas, lembrou das posições que mais agradavam na cama, as fez.
na sucessão cruel de músicas, cada amante abria abrupto a porta, estuprava suas lembranças, com uma doçura e uma rudeza que ninguém pode ter, só nas hipóteses, mesmo.
nenhuma lembrança falaciosa teve casa, só o mais cruel do real. não teve força. apertando um botão e a dor podia cessar, mas o rádio rolava o mais tétrico que havia de som.
amor era uma hipótese distante, e sofrer era de muito mais gosto e gozo. amor era uma mentira de outros tempos, que ela insistia em fingir acreditar-gostar-sentir.
ela já não era mais eu. e eu, mais ela que nunca.

(lacuna inc. é o caralho, quero sofrer até não sobrar nada.)

8.3.09

sobre como eu me tornei um monstro.

não, eu não vou repassar nenhuma foto de nenhuma criança desaparecida.
afinal, eu sequer olho pras possíveis crianças desaparecidas, vivendo na rua. nem você olha. tá, meu bem?

e se é pra viver de hipocrisia, eu não vou fingir que faço algo. ei, olha aqui:
SOU UMA TREMENDA ACOMODADA! ouviu? é, isso mesmo.

eu não vou panfletar porra nenhuma. eu sei e você sabe que andar na paulista não muda nada.
quer mudar? bacana. molotov no congresso, amygho.

socialismo está morto.
o cristianismo, o humanismo, o caralho-at-four, o amor ao próximo.
só sobrou a hipocrisia.

pra mim, já basta.

1.1.09

respirei fundo. os olhos decidiram não abrir. já sentia o sol no quarto: minhas pernas suavam, no enrôsco de lençol, edredon, meias, um mundo de tecido enrolado nas pernas. por que raios eu preciso me enrolar tanto pra dormir? já sabia que não ia me safar. não deitada. sem abrir os olhos, joguei as pernas pra fora da cama. enrolada ainda. foi aí. nesse exato segundo em que o mau-humor mais bolorento se abateu em mim. cobri os olhos com as mãos. eu sentia a mistura de suor e maquiagem. precisei respirar.
uma
duas
i n f i n i t a s vezes.
os cílios colados, os olhos sêcos. era um prenúncio de ressaca, eu sabia. ninguém na cama. ainda bem. não achei minha calcinha. tentei colocar o vestido da noite anterior. fedia. a cigarro, bebida, suor de outros. tive nojo. me enrolei num lençol. o chão estava imundo, as paredes. lixo, em todos os lugares.
- vão embora. e batam a porta quando saírem; isso fui eu quem disse. e daí, foram embora. pra limpar direito, a casa precisa estar vazia.


antes que o dia estivesse arruinado, passei um café forte. liguei o rádio. peguei um saco de lixo. foram embora muitas latas de cerveja, muitos maços, muitas bitucas. recolhi as camisinhas, sem nojo. juntei os restos de comidas, as garrafas, as flores mortas.
taças, copos, colheres. lavei tudo. e a água caía leve. entre um copo e outro, só mais um trago no cigarro. lavei com sabão e vassoura o chão. corria preta a água.
descascava o esmalte vermelho, vadio. parecia vulgar. os olhos com maquiagem borrada pareciam muito ter chorado. mal sabem vocês, que eu desaprendi a chorar.
suava. o cheiro ordinário da noite desprendendo de mim. a casa voltando a parecer casa. limpei os sofás, encerei o chão. estiquei os tapetes.
botei copos no lugar, os livros, os discos. quando as coisas voltavam ao lugar, as memórias se apagavam.
por fim, da noite, só sobravam os cheiros. queimei o vestido, os lençóis. arranquei o resto do esmalte. me joguei debaixo do chuveiro, gelado. e foi com o cabelo pingando, a cara limpa e cheiro de sabonete que me olhei no espelho.

- adeus ano velho; eu disse.

31.10.08

Falsa crônica da triste morte do desamor cultivado

Acordei. Doía da cabeça à garganta, jurei que esse maço era o último. Jurei. Doíam as pernas, como pesos, como mortos. Jurei fazer as tais massagens, passar menos horas em pé.
Levantei com a leseira que me é tão peculiar, fingi que as cobertas não me engoliam, mornas. Levantei - antes de estar atrasada!. O banho foi prazeroso, a descoberta ante o espelho foi lenta.
Mastiguei o gosto do amor sincero, que ainda fluía pelo meu travesseiro. Fluía. Não lembrei do teu rosto, gloriosas as horas todas sem tu. Evitei toda morte que ainda podia me causar: me safei. Das unhas fiz vermelho, das palavras fiz paixão, não deixei nada nos armários: levei passados, joguei memórias numa fogueira improvisada no meio do jardim. Eu te matei! ou matei o que de tu me matava em mim. Eu matei teu riso sincero e teu toque macio, que cortava feito limalha de ferro. Teu cheiro pensei que podia me asfixiar, não podia. Não, não pode mais.
Juntei as malas, juntei as dores, levei travesseiro e cachorro, palavra escrita e cantada, medo e coragem e força.
Remexi baús. Lembrei de quando minha menina ainda chorava escondida os teus desamores. Lembrei que antes da tua rede me botar em torpor, houve em você força que seguiu. Houve força inspiradora. Houve força que me levou, aos 18, estar onde queria estar - historiográfica. E ir aonde preciso: soltar asas, deixar voar. Minha casa agora é outra, que não de mãe.
Matei meu amor doente, morto está. Deixei aberta a ferida que me fez - ainda pulsa - aquela força quase bruta que me roubava com a poesia.
Foi mais cicatriz do que tatuagem. Ainda lembro. Não dói mais.
Bati a porta, girei a chave. Houve eco.

em fluxo inconsciente.



(lua em recomêços. lembrando do que já foi fim, e hoje é estória.)

31.7.08

sobre amor e isqueiros.

"que não seja imortal, posto que é chama
mas que seja infinito enquanto dure"
(vinícius, sobre seus isqueiros)


acho que todo mundo que fuma, ama o seu isqueiro. às vezes mais brutalmente que a mãe, ou o marido, ou o cachorro. e é sempre um relacionamento de posse. de uma posse doentia. todo mundo levanta e pergunta, no bar: "cadê o meu isqueiro.?" e o tempo vai passando, existe sempre um medo, uma apreensão constante. até quando ele vai ser seu.? até quando estará na sua bolsa, sempre que você remexer um bolso, nervoso.? você olha desconfiado os outros da mesa. qualquer um que acenda um cigarro com um isqueiro do tamanho e da cor do seu, é motivo pra levar a mão ao bolso, num movimento cego e assustado. se você não o encontra, pensa se vale a pena dar uma voadora naquele filho da puta que, com certeza roubou seu objeto de tão alta estima e paixão.
há ainda aqueles, que certos de que jamais deixarão o isqueiro pela forma natural, o fim da carga, desiludidos, passam a usar fósforos. fazem um ar demodé, degradé e tal. ensaiam sambinhas, desafinados, rindo. mas é em casa, quando vão acender na janela e usam 15 palitos que pensam (em segredo até deles mesmos, cheios de desejo.!) "merda de fósforo.! ai, isqueiro amarelo de meus pecados..."
outro tipo de desilusão, é pedir a brasa a alguém. você conclui, mentalmente, "ótima oportunidade de conhecer pessoas não tão estranhas: fumantes e que andam pelos mesmos lugares que eu." mas intimamente se sente um mendigo. um amante patético, rastejando por quem não dá bola, não te quer.
do outro lado, tem os fanáticos. a relação acaba, digo, a carga, e eles não aceitam. compram fluído. os amigos dizem "bom esse isqueiro, han.?" e você ri internamente: "só eu tenho o amor eterno". ainda que morra de medo do abandono. e então. se torna patético. se alguém, desiludido, precisa da sua chama, você acende o fogo e, antes mesmo que o outro possa tirar o cigarro da chama, puxa o isqueiro e o enfia no bolso. seu isqueiro.

a mais avassaladora das paixões humanas, a posse da natureza, a desgraça de nero.
o amor com 7 cm.



- apoio cultural: milani.

25.7.08

começou numa tarde fria. matou o trabalho, viu sessão da tarde. estava tudo bem, mas daí apareceu. debaixo do cobertor. o susto foi tanto que nem lembro se disse algo: botou a cabeça inteira de baixo da torneira, o choque da água gelada amenizou as coisas.
ufa, haha. um alívio falso, a risada falsa. tudo que tinha a declarar.
a experiência, ainda que breve, foi exaustiva. tentou dormir. até conseguiu. mas ainda no cochilo, sonhou. acordou num grito.
o que era aquilo? suava aos cântaros. pensou que talvez fosse mesmo melhor ter ido trabalhar. pelo menos não tinha tempo praquelas coisas.
ligou a tv, bem que tentou prender a atenção. mas o olho escapou pra janela: fazia uma tarde linda. antes que pudesse perceber, estava colado ao batente, tomado de um lirismo vertiginoso. foi na parede que saiu seu primeiro poema. sem nome, sem rima, sem métrica.


largou o trabalho, levou flores à mulher, brincou de rolar no chão, com os filhos.
perdeu-se, enfim.


~*


(foi coisa de bololeta.)

7.7.08

solidões.

minha casa ficou vazia,
tinha êle uma solidão, que juntou com a minha, fez-se riso.
chegou ela, pra graça do seu ar
o outro êle, depois, pra encher a cama.

veio mais uma ela, tocar a superfície
e êle mais, pra mergulho sem pestanejar.

baralho, cerveja, cigarro, sexo, lágrima.

foi bom o barulho,
foi bôa a comida,
até o cheiro e a bagunça estavam bons.
mas estava aqui, fria e pegajosa, solidão, roendo feito traça.



(foi só hoje, lavando os restos de alegrias forjadas foi que eu vi. eu não tava sozinha não. e com a caneca na mão, a janela - constantemente - escancarada, foi que eu vi. amigo não é coisa pouca. e enche boneca de pano. bem demais.)

2.7.08

prozac não é balinha,

vazio nem sempre é solidão,
braveza nem sempre é ódio.
tristeza nem sempre é depressão.


eu não sei quem foi que inventou que ficar triste não pode mais. que a tristeza é o fim do mundo e contra o fim do mundo, toma prozac. toma prozac e fica feliz. e quem foi que disse que engolir essas coisinhas te faz feliz, hãn.?
no fim das contas, acho que eu sou triste e burra mesmo. eu não fico feliz comendo margarina. nem sou linda muito linda demais porque uso o xampu x. eu devia comprar um carro e ser feliz. e ganhar umas loiras altas. das tampinhas da minha cerveja nunca pularam umas mulheres seminuas fazendo cara de sexie.
é, eu não vou ser feliz com um cartão de crédito. e nem com prozac. então não me enche o saco e me deixa ser triste, sim.?

ps. na verdade, eu acho que é tudo culpa do consumo, sim. pode ser clichê, pode ser ai-ai-ai-como-sou-intelectual! mas é assim, pra mim. num mundo em que ter é mais importante do que ser e pra ter você trabalha tanto que nem tem tempo de ser relacionar com pessoas, que é grátis, você tem que se relacionar com coisas, que não são grátis. e aí, meu velho, você trabalhar pra pagar - e você já nem sabe mais o que. e os publicitários se encarregam de te convencer que o lado bom da vida tem garrafa, rótulo, tampinha e o caralho a quatro. aí você toma litros de refrigerante, pra ser feliz. e fica cheio de celulite. aí a revista te ensina que celulite é sinônimo de tristeza (e daí todo mundo já sabe... tristeza é sinônimo de depressão, tralálá). aí você paga os dois olhos da caras nuns cremes que tiram a celulite. mas esse era o dinheiro das férias.! aí você fica com a bunda lisa em casa vendo tv, se irritando em vez de tocar um foda-se na celulite e ir curtir um mar, um céu, um sol.
e daí é assim, fim. uma coisa é ficar triste e fim. outra coisa é pagar pra ser infeliz.





(veja mais seus sobrinhos, empine mais pipa, corra mais na chuva. que felicidade não dá pra ser em 3 vezes sem juros, cara pálida.!)

1.7.08

voyer.

a noite veio, eu quis ser dela. fez-se madrugada. o amor é intenso, densa palavra. fujo pela janela, as vezes são incontáveis, às vezes noto, anoto, reviso. até as 10, todas as luzes do banheiro ficam acesas. todos estão na sala (menos o 3º), todos de cortina fechada (menos o 4º). pouco mais, pouco menos das onze e meia, param os barulhos assustadores dos tróleibus. cinco e 35, em tôrno, eles voltam. é rápido, do ponto final até minha rua. (andei duas vezes, só. pra ir e voltar da tamandaré. faz uma volta numas ruas bonitas. -menti, foram três. andei um ponto, quando dormi no aclimação e desci no parque).
da janela eu vejo a antena colorida, da paulista. e tirando a recifense prêta, não tem ninguém pra conversar comigo. (e ela escreve bem a valer, mas não tenho ganas de ela, há tempos).

mastigo o dia.

tenho amor há tão pouco e medo há tanto. como é que amor incorpora, mêdo não.? será que é açúcar e óleo - e ágüeu.?
dobro os joelhos, é bom mandar no corpo, ouço os cachorros, estralo as costas.
cogito um cigarro antes de te acordar.
(são 5 e vinte e subiu um ônibus, pela rua do lado.- de certo desceu, que essa rua só desce.)



quando foi que dei pra achar o cotidiano tão belo.?

29.6.08

- eu torci o joelho,

, mas dessa vez ninguém veio me passar a matéria de ciências. nem trouxe deliciosas cartinhas patéticas, pedindo as minhas coisas (pois meu enterro era certo). dessa vez não tem desenhos no gesso, nem propagandas, nem nomes de amigos que não tenho.
torci o joelho, mas não tive festas no quarto.

mas da outra vez não tive que dormir de lado, porque a cama é pequena, mas o amor é grande. da outra vez, eu tive mão de mãe a me espalhar os medos, carro vermelho pra me levar pra casa. dessa vez paguei o carro e foi passarinho que me levou comida, na cama.

da outra vez, eu aprendi a chochetear. e dessa, fiz flôres. o tricô virou cachecol que vai virar presente, pra longe.

eu voltei a reconsiderar o que nem pensava mais. que a calçada dessa cidade garoenta não deixa andar quem tem em si debilidade. que ir e vir é presente, grande. que esperar do outro o que tem pra si, dói. a espera é uma angústia.
(que ficar longe do aquário mais é bom que ruim.)

20.6.08

Sabe quando é indiferente.? Então, tem-me sido indiferente. Tanto faz o dia da semana, segunda, sexta, domingo. Vivo os dias com a mesma inerte intensidade. Me são indiferentes as horas. Às 10 horas da manhã, às 6 da tarde, meia-noite. Nas horas todas eu quero dormir, e só. Eventualmente, tomar um homérico porre, fumar um maço de cigarro, engolir 5 ou 6 pílulas que me façam dormir.
Não quero ir para o lado de fora, mas não quero ficar só.

Eu espero tranquilamente,
sentada,
deitada,
dopada,
que as coisas mudem e deixem de ser hostis do lado de fora de mim.


(e enquanto não muda, enquanto me desagrado, escrevo furiosas cartas à prestadoras de serviço que me tiram a saúde.)

10.6.08

Wlaker.

1. Rolou na grama, rindo. Ela tem 4 ou 5 anos. E ele é seu primeiro amigo. Se aninha nas suas pernas morenas, faz um barulho que lembra um ronronar ou um latido. É um filhote lilás de wlaker.

2. - Mãe, posso levar sucrilhos.?
- Não, tem Wlaker em casa.

3. Baixa o cd do Wlaker pra mim.

4. Acendeu um cigarro. O seu humor estava dos piores. Pena para o mundo. Wlaker era impiedoso. Atirou no gerente do banco, a menina do telemarketing ainda está em choque.
Ei, não olhe para trás agora...
PEI.

chiado. tv fora do ar.






- o que é wlaker.?

9.6.08

Ode às manhãs

Um dia eu acho que eu vou dormir pra sempre. Não morrer, sabe. Só dormir tanto que vai ser pra sempre. acordar, eventualmente, para comer. E fazer xixi. E dormir.

~~*~~

Cena 1. Dia amanhecendo. Um bando de adolescentes caminhando em grupos para a escola. Uma mulher anda só, no contra-fluxo. Tem cara de sono e trejeitos típicos de uma ressaca.

Mulher:
Eu admiro o sol, e sua intensa coragem de milenarmente subir todas as manhãs e peregrinar céu afora durante o dia.
E depois, eu admiro vocês, estudantes do Brasil, que se levantam com toda a força e toda a coragem de guerreiros, marcham pra escolas com quilos de maquiagem, as suas roupas de marca, seu charme e graça vis.
Os velhos, eu admiro todos.! Em suas saudáveis vidas, acordando junto com as galinhas para suas caminhadas matutinas em nome da saúde. (acende um cigarro, cospe no chão)

Eu admiro essa vida, bela. Suja, a minha. Imunda. Mundana. Acordem cedo, ó cidadãos de bem.! Que meu café preto eu tomo depois do meio-dia.

Cena 2. Tira a roupa, se joga na cama, geme de prazer. Dorme, enfim.

7.6.08

Cores que não sei o nome ou A vida anda - ou não.

caramba, há quanto tempo eu não passava uma sexta sozinha em casa, refém da minha mente maníaca.


~~*

Frustrada.
Nunca gozou.
Devia ter casado com o cara que gostava, mas teve que casar com o primeiro.
Bem resolvida. Mas queria um príncipe.
Acha que o sapo é o príncipe.
Frígida.


A escada rolante desce e eu a olho de baixo. É incrível a facilidade com que analiso sexualmente todas as mulheres que passam. Virgem!, eu disparo em pensamento. Não faz sentido. Mas as minhas análises só têm mulheres com problemas sexuais e homens viciados em sexo. Ou que nunca beijaram. É bizarro, espero que as minhas previsões nunca estejam certas.

O cara entrou. (Quer uma mulher como a mãe, foi a análise antes de começar o parágrafo de Pablo). Sentou-se. (quer a gostosinha do emprego, a doentiaMente, mas sabe que ela tem um namorado bombado. Mas ela deixaria o gostosão para ficar com ele). Levantou-se, sentou entre uma menina (acabou de descobrir que gosta de beijar amigas no escuro) que viajava de costas para o caminho (e eu também), e uma mulher, seus vinte e tantos (mal resolvida...) que olhou. (e pensou assim: esse cara ta me olhando. panaca. sabia que meu cabelo ia ficar muito bom, assim...). E ainda que ela disfarce, ela quer que ele olhe. Ele olha (cara machista, meu...será que ela tá dando mole?).
Me concentro no livro.
- será que sou tão maníaca que acho que todo mundo é doido também.?

Cogito digitar um número aleatoriamente no celular, discar, perguntar se quer trepar doidamente. Procuro o maço, lembro que parei de fumar.

o tempo passa. a vida anda cretina.