11.9.12

Ode aos óculos.


Nunca vou me esquecer de quando descobri que precisava deles. A minha primeira reação foi culpar alguém (coisa que faço muito bem, distribuir culpas aleatórias). Depois, fui comprar os malditos óculos. Chorando. Quando experimentei o vermelhinho, a luz se fez em minha vida. Ele combinava com a minha cara inchada e meu nariz vermelho: meu óculos ornavam com o drama. Ele me escolheu. 
Lembro de quando eu não sabia limpá-lo direito, e ele sempre estava coberto com uma leve camada ensebada e empoeirada. Da demora em aprender a tirar os óculos antes de beijar. De quando todo mundo saía procurando meus óculos, putos comigo, porque eu o tinha pendurado num lugar idiota: num cabide, junto com a toalha do banheiro, no puxador do armário, no freio da bicicleta. O incrível poder de transformar todo homem num arquiteto viado. Todo mundo dizer: se não tem grau, pra que é que você usa? A horrorosa sensação de acordar depois de ter dormido com a cara enfiada no óculos. O momento da noite em que com-óculos-sem-óculos-tanto-faz, já tá tudo borrado e brilhando, mesmo. A experiência de andar na chuva e as gotas virarem estrelas na lente. O dia que eu pinguei colírio achando que esta sem ele, a gota escorreu na lente e eu não entendi nada. O Psicodália em que dançamos Confraria da Costa em cima dele, e passar o carnaval sem eles. As várias vezes que ele batia no óculos de outra pessoa. Ele mais torto que minha cara nos últimos meses.
Foram 3 anos juntos. Meu primeiro par de óculos. A dor e a delícia de ter eles na cara quase todo dia. Um triste fim pra um amor mal ajeitado.

27.8.12

Banzo.

Não quero ir, não quero ficar.
Não quero ser daqui, eu não sou de lá.
Quero viver sem essa eterna espera do que eu nem sei o que é.

1.8.12

Declaradamente #2


Na agonia da insônia, pensei em você. Acho seus olhos engraçados, mas tenho vergonha de dizer. Miúdos, espalhados, são olhos engraçados, meu bem. Fiquei lembrando da primeira vez que me vidrei em você. Eu desarmada e tu me diz: é, e tu fica linda assim. Eu, que nunca vali nada, fiquei toda derretidinha nas suas doçuras, e queria fotografar seus olhos naquele instante. Insanos, loucos, apaixonantes. 
E eu, que gosto da tua boca e do teu cheiro e do teu sexo e dos teus pelos, fiquei gostando muito de tudo, e achei até que era um gostar meio errado. Fiz errado, porque é o que faço melhor, e num mar-de-verbo falei tudo aquilo, que eu nunca devia, do pior jeito e fiquei quadrada, intranquila, medrosa. Mas o tempo foi amigo, andou e desachei errado. Achei até bem certo, ser de impulso nos amigos do estrago.
Fiquei querendo dedos-abraços-segredos-tempos-colados. O tempo foi virando fumaça, os encontros rarearam, e com eles a paixão. Fico, boba, com o coração molinho de te ver, todas as vezes. Mas fico pensando, em suspiros, que tenho mais saudade de ver seus olhos calmos e saber que tenho um cúmplice de sempre, de todo dia, meio adolescente, de contar meus medos sem ficar vermelha. E abraçar.

Ah, não existe coisa mais triste que ter paz.

24.7.12

Projeções #1

Me convenci a não roer nenhuma unha. Olhava minhas mãos, já desacostumadas à vermelhidão do esmalte que você sabia o nome. Desacostumada com qualquer esmalte, os dentes seriam uma perdição. Dancei sem música, num espaço muito curto, sem que ninguém visse. Me dependurei no vermelho-branco-preto da calçada, tentando pensar em outra coisa. Qualquer coisa.
Aquela esquina sempre me fez sorrir. A cidade toda diferente, lembro de andar contigo reclamando das luzes de Natal, na última vez. Eu sempre reclamo das luzes de Natal. Beijos-passados se intercalam na sucessão de memórias e você não chega. Você sempre se atrasa. Lembro das lágrimas. Por que, nessa cidade imensa, as conversas se concentram nesse ângulo, esquina, quadrado, quadro?
Espero você e os cigarros que vão amortizar minha ansiedade. Desejo uma cerveja gelada ignorando meus suores nas mãos. Me sinto com 18 de novo, toda apaixonada e boba. Seco a ponta dos dedos num vestido propositalmente curto, propositalmente indie. As caras parecem de outro lugar, a cidade parece ter expandido nos últimos meses.
Me recuso a contar All Stars ou pessoas de vermelho. Me recuso a morder os lábios e comer batom. Me recuso a tremer com a demora. Sinto ganas de mandar todos pararem de andar por todos os lados, e esperarem quietos os seus sinais. 
Procurando um padrão nas calçadas, vejo seu velho tênis branco, surrado; sua pisada torta. Sua calça muito justa, a camisa xadrez. Seu rosto com aquela mirada de malandro, o meio sorriso, os lábios que soltam a fumaça. Um olho que pisca, o outro me mira. Sinto tudo derreter em água morna, seus dedos firmes me prendem pela nuca, sinto o cheiro do meu cabelo penetrar silencioso em você, e sua voz melodiosa me diz:
- Oi.

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11.7.12

Descaminhos.


Eu saí de casa ainda mais cedo. Queria te comprar flores, só pra te ver perder o jeito, ficar calada, oblíqua, vermelha. Ensaiei mentalmente como enlaçaria sua cintura e como seu riso seria frouxo e tímido. Ensaiei olhares, preparei meus melhores versos, para que soassem naturais. Tingi tudo quanto pude de vermelho.
Brinquei de pisar nas pontas dos pés, brinquei de ter notas musicais nas calçadas. Eu te levava um sonho musical de muito tempo, um desejo bruto e sublime, eu te levava meu peito aberto. Eu levava toda a minha paixão adolescente do amor de longe, eu levava todo o tesão de amar as pequenas. E tinha muito caminho para os meus pés.

MAS.

Os pés trilharam rumos que eu não sabia. A vida me cobrou mais alto do que eu sabia gritar de volta. Fugi do teu caminho, mastiguei uma a uma as pétalas das rosas. Andei o percurso inverso, sem nunca ter te estreitado num abraço, com o peso da culpa e uma enorme ausência de você.
Passei o dia na cama, febril, ensaudadecida, cansada. Sinto falta dos teus dedos no meu cabelo. Queria ter sua pele acariciando as inflamações oníricas da minha pele. Queria dormir no teu colo seguro, antes de a vida voltar a ser real. 
A respiração desafoga, é superficial, o sono lambe minhas pestanas e te encontro num lugar a salvo do mundo.

9.7.12

Sobre olhar o mar.

O mar me olha, me molha. Meus olhos são pequenos pra sua imensidão. Furtivo amante, penetra em todas as minhas frestras, me ressignifica. Eu sou exata e simples, só nele há mistérios. E, imersa, sou toda mistério, penumbra e murmúrio. 
Não existem palavras para o mar. Quebram as ondas, eu me parto, remonto, eu fico. Como um amor partido, como todos os sonos com olhos abertos. Entra o céu de chumbo da cidade.