20.8.13

Solidão agosto, relendo.

Desde que comecei a procurar casa, desde sempre em Porto, olho casas com desejo. Todas, as viáveis e as não. No mundo dos quereres, tudo é possível, tudo é viável, tudo é divino e maravilhoso. Quando decidi me mudar com os amigos, tantos deles, o olhar se refinou, as placas de aluga-se saltavam aos meus olhos. A pé, de bici, de dentro dos ônibus. 
Agora eu não tenho casa. Eu existo no tempo, em muito espaços. Um pouco lassa, um pouco extenuada, um tanto inexistente. E no meu caminho de rotina tem a rua da República, e sua imensa casa vazia. Seu enorme jardim largado. Seus espaços em hiatos. Eu vazia dela, ela vazia de vida. Eu transbordante de vida, ela seca e sussurrante, ávida.
Me consome saber da vaziez da cidade, das casas fantasmas, da poeira assentando sobre tudo que caberia num mundo doce: ninhos, afetos, travesseiros. Vagamos nós, famintos, friorentos, como uma gota que pinga no vazio, o eco. Reverbero inteira sem nenhuma certeza. 

E quando chove, sinto até os ossos gelados, nessa cidade blasé e sem ternura. Fico parada, desejando estar mais ali. Mais dentro. Entranhada naquele cimento. Eu seria boa para ela, com uma panela quente e fumegante, meus amores enrolados num tapete felpudo. Eu seria lar para aquela casa tão só. 

Sigo amando 
só 
a casa 
sem nó.

12.7.13

solidão.1

De tanta amargura o olho vira sal. O coração se comprimindo numa caixinha do tamanho do nada, deixa só um soluço quebrado na garganta.
Incômoda. Inapropriada. Indesejada. Descartável. Os sentimentos são antigos e se sobrepõem, comprimindo mais, soterrando meus sentires suaves, as doçuras. Amalgamando a desesperança. A certeza de ser só um erro, um desvio, uma pedra no caminho. Nociva, cruel e exasperante, num mundo de água eu sou toda óleo. 
Do amor, só sobrou o medo, o desengano, a fratura frágil e exposta, latente, sangrenta. Não tenho minha personalidade, meus climas, meus tempos. Espero uma onda ou a morte, o que me arrastar primeiro.

26.5.13

Derramamentos #1

Da flor, o mistério. Não sei se sabes, mas eu não sei. E o não-saber-não-ser-sem-desser, mais saboroso que qualquer olhar, vai adoçando meus dias, e pinga-pinga-pinga assim, delicada. Te brota em mim, hortelã, folha atrás de folha - dobrada, verdejante, um coração; cheiro atrás de cheiro - meninamulher. E enche meus dias de borboleta e abelha e mel. 
Me desviro num jardim, metade sabor, metade cor, só para te encantar. Desviro os versos em frutas, que seus lábios gostam, sorriem. Me encanta seu sorriso, assim, enviesado. Ou daquele jeito outro, escancarado. E os lábios num biquinho, passarinha, para me desvirar em nuvem, flutuo, a brisa me desfaz. Chovo em mim e não te alcanço.  
Fico, sem querer, na ponta dos pés. Pisco as pestanas, cheias de orvalho, para te ver, bailarina, pisando levinha aqui-e-ali. Me estico até lá longe e não te toco, não sei seus macios nem seus quentes. Do que me resta, contemplo seu existir tão tocante, com dedos tremelicando, coração na gangorra. E, mesmo antimusical, solfejo meus ais em mi menor, e lá.

De todos os mistérios do planeta, tinhas justo que ser a flor.

13.5.13

Da adolescência tardia.

Uma onda imensa, um calor intenso, estrelinhas que piscam-piscam-piscam. Me sinto adolescente, desistindo e recomeçando, acreditando na felicidade. Acredito tanto que o mundo vai ser mais doce, eu vou viver de suspiros, risinhos e asas de borboleta. Não consigo aceitar as obrigações cinzas e enfadonhas porque sim, quero motivos doce para caminhar, para seguir, para querer viver.
Sinto tudo e sinto tanto, pulso inteira, tremo com as menores brisas, os sutis toques, os subliminares verbos. Escrevo como se escrevesse um diário, cheio de poemas e corações. Vivo como se vivesse um diário, com canções bobinhas, segredos com amigas, códigos secretos, escondendo as doçuras e mistérios de tudo quanto não pode ser tocado.
Vivo as amizades queridas, anoto nas bordas dos livros, bebo demais, me apaixono pra sempre a cada sexta-feira, parto meu coração e esqueço que ele está partido, assisto Amélie Poulain. Escrevo cartas jamais entregues, esqueço de lavar a roupa, deixo o esmalte roído, ligo no meio da noite pra não me sentir sozinha.
É euforia e vazio, festa e solidão, amortotal e lágrimas de água do mar. 

Dentro de mim, é tudo névoa e sparkles, e sininhos tocam no caminho do vento. Só queria poder abraçar o mundo com sutilezas.

4.2.13

ovo.

Uma saudade incomensurável de tudo quanto é quente, redondo, macio. A procura desesperada pelo amparo impossível nos copos, nos corpos, nos delírios. Um vazio devorando aos poucos tantas certezas, tantas adultezas. Nem gato, nem língua, nem livro, nem birita, nem cigarro.
Nada me acalma.
Nada me preenche.
O choro fica meio engasgado, meio deslocado. Não tem motivos pra chorar. Não é saudade: é uma precisância enorme do cheiro da cozinha da avó, de dançar descompassada com o avô. De dar colo pro primo, e contar história, e dividir as histórias da vida, e pintar com lápis, e fazer bolo de chocolate com recheio de chocolate e cobertura de chocolate e confeitos de chocolate e comer dois pedaços com Toddy. É passar a tarde ouvindo as histórias da casa e os porres dos tios e as histórias de de velório, de churrasco, de acidente de carro. É ouvir as mesmas brigas sobre quem é quem nas fotos preto-e-brancas, já velhas, meio esquecidas. 
É a vontade de ficar embaixo da mesa pra ganhar cafuné de mãe. De ter que levar casaco e guarda-chuva e ligar se for atrasar. É ter que ir ao médico emburrada. É se sentir meio adolescente sendo controlada pela mãe e adorar isso. E pedir pra dormir junto e desistir no meio da madrugada, porque é cedo, porque precisa fumar, porque.
É odiar ter quebrado a casca do ovo, e só saber tudo isso por tê-la quebrado.

11.12.12

Prelúdio.

- mexe qualquer coisa dentro doida
já qualquer coisa doida dentro mexe.
(caê)

Como num bordado imenso, a beleza, a bossa vêm da repetição. Esperamos com calma o tempo de trançar as linhas que esboçam um desenho que não enxergamos, porque enorme. Que não tem fim, porque espontâneo. Não sabemos o que virá. Como virá. Se virá. 
Sei dos matizes, das cores, dos tons. Sei dos cinzas, dos hiatos, dos nós. Se enquanto traçamos sobram-nos as lágrimas e os ais, faltam as razões, desviram-se em fins. E só quando se torna passado enxergamos a luz e os brilhos, porque tem escuridão. Os vazios delimitam os detalhes mais sutis. Mais nossos. Ainda que o tempo-espaço seja cruel e fira os desejos, extrai com cuidado os aromas mais profundos. 
Somos bicho, pele, cheiro. Fome, instinto, tesão violento. Fluídos, suor e sangue. Numa noite carregamos energia luminosa para clarear os caminhos tantos outros. Expostos.
Somos verbo, poema, canção. Escolhemos a dedo as palavras-imagens que se erguem como castelos entre nós. Translúcidos e etéreos, juramos sob a lua vazia as delicadezas que só cabem a nós. Que esmiuçamos  ao longo das noites mais molhadas de saudades e desencontros. Delicados.
Afino meus gestos para seus acordes precisos. Sinto a pele, as ideias emaranhadas. Me misterio para você descobrir. Desabrocho, para você me tocar.

26.11.12

Ostre-se.

Nasceu dobrada, deslizando sob o azul. Por fora, concha. Por dentro, molusco, mole, víscera. Nasceu sem saber que tinha nascido. Cresceu sem saber que existia. Sabia o sal, o mar, a maré, o clima. Sabia quente e frio, mas não sabia  calor. Não sonhava, porque não tinha futuro, não tinha medo, não tinha desejo. 
Escolheu de cama uma pedra, e lhe bastava a dureza contra a pele áspera. E num bocejar distraído, como quem se espreguiça sem largar do travesseiro, engoliu um grão. Um pesadelo grão, um grão pesado. Um estrangeiro invadindo seu âmago, seus mistérios, seu não sentir. Não sabia gritar, não tinha abrigo que lhe protegesse do estranho. Seu meio exposto, do lado de dentro. Como não sobrasse mais nada, chorou. 
Tanta lágrima, e a dor era constante, irritante, aguda. Lágrima branca, a escorrer pelo tempo. Os sentires amargos se espalhando como raízes conscientes na sua existência tão sensorial. Já esquecida de sentir o azulmar, por sentir tanto o pesogrão, um dia não existia mais mar. E a dor da secura quando já tão acostumada à água, o incômodo. 
Dentro, peso. Fora, árido.

Desdobrada. Por dentro, um segredo. Por fora, um emaranhado de dedos e visgo. Visceralmente exposta, pulsando numa morte seca, sem sangue. Um grão parece leve quando não há água-e-sal. Um riso humano se espalha no ar, se esparrama, se ri: é uma pérola. 
Desostrada, a massa cinzenta em meio a tantas outras iguais, não gosta da risada feliz.