5.8.08

O homem é sal. A lágrima é sal, o sangue é sal, o gozo é salgado, suado. De tanto sal, o mar é homem.
Olhava sua humanidade brutal. Tão sensível, que era brutal. Seu ir e vir, seu sal. Seus mistérios encarcerados: sua onda. Era homem: de uma vastidão imensa, que em olhar para um ponto era perder uma vida inteira.
Tive desejo.
Eu era mulher, e desejava seu cheiro de homem. Sua força, seu abraço, seu sal.
Fingi indiferença, com ares de mulher. Deixei o pé, distraída. Tocou-me com o branco da espuma. Fiz que não senti. Lambeu as pernas minhas: era a volúpia do sal, frio. Me deixei ir. Arrepiou minha pele o toque sereno. O desejo velado. Tocou meu sexo, entre véus. O que velado era, a imensidão do céu não via. Turvavam as águas, eu fechava os olhos: no escuro não há pecado, não há segredo, não há mistério.
Eu não sabia nada. Eu via o que meu Homem Mar me deixava ver. E nem tudo eu via! Eu lhe era inteira, distraída, fingida. Fingia o acaso dos seios nus, o acaso dos lábios ávidos, o acaso do corpo oferecido.
Abri a boca, o caminho do ar era muito. O prazer era do ventre, e era o ventre que fazia a voz: o mais profundo gôzo era sonoro, era abafados pelo acaso do som, do sal.
Abro os olhos, me vejo nua, seca, muda. A lingua tinha sede de sal. (O mistério da onda é tanto, que eu tenho medo do mar.)





- pros poucos, porém queridos que vêm me ver, eu deixo um beijo. que o mundo cresceu demais, e eu não posso ficar aqui parada. outras férias virão. agora o tempo é de livro, papel, caneta.

21 comentários:

Bruno Dumont disse...

lembrei hoje disso, enquanto falava com a flôrzinha...
=]

tu é uma linda!

Laira disse...

Isso foi muito lindo
Fiquei toda arrepiada ^^
É, o tempo agora é de perder a vida para uma coisa que não sei se vale a pena....
bj

ane. disse...

desejo. necessidade. vontade.

.mãos coloridas disse...

ei! obrigada pela visita e pelo comentário tão tão doce. vou tentar atualizar em breve.
prometo!
(gostei muito dessa tua casa)

marcia cardeal disse...

Quando nascer de novo quero escrever um texto assim. carinhos daqui.

Cleyton disse...

Gosto daqui. E não demore a escrever. beijos!

*** Cris *** disse...

Gostei do que li, não deixe de escrever aqui. Bjs!!!

*** Cris *** disse...

"minhas resoluções duram pouquissimos" gostaria de entender do que se trata, se possível fosse.
Bjs!

*** Cris *** disse...

Acho que as Almas não são pequenas ou grandes são intensas ou menos intensas, garanto que a sua é intensa!
Bjs!

Jaya disse...

"O homem é sal. A lágrima é sal, o sangue é sal, o gozo é salgado, suado. De tanto sal, o mar é homem."

Isso aí foi lindo!

"(O mistério da onda é tanto, que eu tenho medo do mar.)"

Isso foi tão assim, que eu nem sei dizer ao certo o que foi. Rs.

Certo é que você falou de mar, e isso trouxe ondas pra dentro de mim. Eu também me faço mar, por vezes. E me faz bem sabê-lo infinito. :]

Bom receber visita tua, moça.

Some não! Deixa o mundo crescer, aproveita e voa, mas vai pousando aqui pra contar tuas coisas pra gente.

Beijón.

Filipe Garcia disse...

Oi Lua,

que delícia de texto. O visual das suas palavras montadas é incrível. A metáfora homem-mar foi bela, inteligente, poética e de extrema sensibilidade.

O que mais dizer? Não sei. Diante do belo, a gente se cala e aprecia. Aprecia assim quieto, com a alma.

Gostei.

Beijo

Jaya disse...

Lua,

Entendo o que é ser tempo de caneta e papel. Tempo de ser julgada apenas por bem quereres. E eu desejo que você faça seu tempo, então. Joga os monstros. E continua colorindo. É sempre bom preservar meu nariz pintado quando chego aqui. Tão bom você dizendo que gosta de postar! Continua a escrever teu eu por aqui também, poxa. Faz uma exposição dessa luz prateada. Não deixa o eclipse tomar conta.

Ah, olha só, meu nome é Jaya mesmo. :] “Jaya”, expressão indiana, significa “Vitória”. Foi tirado de um mantra “Hare Krishna”, meu nome. Sou apaixonada por ele. E deixo aqui meu obrigada por tuas palavras em relação a isso. E posso falar? Primeira Luara que eu conheço, você. Adoro nomes assim, que trazem sensação de história a ser contada. De mistério. Nomes pequenos que lambuzam personalidades apetitosas. Tenho gostado de provar. E aprovo. Bonito é saber da tua delícia de ser lua. É senti-la sendo.

Voltei. Volto. É melhor não arriscar um desbotar de cores ficando longe da tua aquarela. Me faço tela, aqui.

Meu beijo.

zu coelho disse...

Muito bom! Brigada pelo comentário.
Aparece, beijos.

Gabi disse...

"O mistério da onda é tanto, que eu tenho medo do mar."

Taí uma frase que eu gostaria de ter escrito. Realmente muito lindo o texto.

Está perdoada, acho que todos têm direito de quebrá-lo. A única coisa que sempre exijo é respeito, neste caso, pelo silêncio.

:)

Teresa disse...

tô vendo que você escreve muito, muito bem!

=*

Jaya disse...

Lua,

Saudades de te ler...

Quer dizer que andou em Paquetá? Deixo aqui um convite permanente. Visita tua, com pincel em mãos, eu nem dispenso.

Meu beijo.

Nina disse...

É tão doce suas pinceladas, que essa casa só tem uma cara: a tua.

Por isso, estou fazendo tua casa vizinha da minha. Para, sempre que puder, eu vir aqui te fazer uma visita e me engradecer com os neologismos que fazes das côres.

Ps: senti o gosto do sal na minha boca, enquanto lia o texto. Afinal, o homem é mar e nós somos o gosto do gôzo.

tangerine . disse...

babei.

Dora disse...

amor é filme, sem cor, as vezes.

^^

Nai Rabelo disse...

as vezes a lua me inspira que nem o mar.

ou o homem.

^^

Jaya disse...

É que eu tava precisando me colorir, um pouco. Aí lembrei dessa aquarela de lua.

Sabe, eu confesso que derramei uns versos de água e sal enquanto os barbudos faziam festa em mim, pela televisão, ainda que fosse. É bom saber que você dividiu da mesma emoção. Bom demais.

Você toda se explicando lá no blog, o motivo das tuas palavras ausentes por aqui. Me lembrei de momentos meus. Parecidos. Então fico daqui esperando palavras ao mundo de vidro. E a espera é doce. Enfeitada. Colorida. Porque a parte boa é que você não some.

Meu beijo, Lua.
:*

P.S.: Já perdi a conta de quantas vezes li esse texto teu. Tá salvo, agora.