8.6.09

outro lado II

tarveiz por inguinorança
ou mardade das pió
furaro os óio do assum-prêto
pra ele assim, ai, cantá mió.

Naquelas bandas, menino só recebia nome depois dos sete anos, se vingasse. Poucos vingavam. Mas, ele vingou. E se soubesse contar, já contaria 11 anos. Mas ninguém lembrava disso, e nem havia por que lembrar. Só mais um menino sujinho, praquela rés de cazuzas sem nome. E era assim mesmo que mainha chamava.
- Ô, Cazuza, chêgue...!
E na poeira vermelha que era aquelas bandas, cazuza só era nome de tudo quanto é menino. E como tudo que é menino, o cazuzinha se apaixonou. Nessa idade, inda não se gosta de menina. Tinha molequinho apaixonado de cabra, de galinha. Um amôr-de-fôgos, pra poder bolir e ter prazer no corpo magro.
Mas cazuzinha esse se apaixonou de um assum-prêto, que cantava bem ali, perto. Um canto triste, desolado. Feito ele mesmo.
E cada vez mais o tempo era bom de passar deitado na poeira, vendo e pequeno cantar só pra ele, um namorinho de muito exibir e muito escutar. Era mesmo parecidos. Magrinhos. Cobertos da cor da fome, uma preta, outra marrom. E os dois eram só mais um, naquele monte de tantos-iguais.
E um namoro sem fim, de se aprochegar. Tanto, que assum-prêto 'cabou pousado no braço do menino. Fechou os olhinhos ainda mais pretos que ele mesmo quando os dedos grossos, ossudos lhe fizeram um carinho meio sem-jeito. Piou.
- Cazuzá!, a mãe gritou de dentro. E o passarinho avuou.
A noite foi de vento, quem visse dizia que o inverno molhado ia rasgar a aridez do sertão. Foi de muito chover e inundar, mas só o trapiche do corpo magro do moleque-sem-nome. Era de um sofrer tão grande, o namorado que partiu, sem nem saber a dor que causava.
O menino queria amor, era só. Nem nome tinha para ser amado. Num falava como os grandes, e nem brincava como os pequenos. Não queria bolir com as cabras, num queria era nada. Queria seu passarinho-prêto, era só.
Padeceu. Mainha chamou o vigário, praquela alminha sem batismo subir pro céu. que o corpo suava uma febre terçã que nada segurava. O padre resolveu contar os anos, e viu que os sete já iam longe, mas já nem valia mais, o nome-santo.
E praquela morte anunciada, veio o amôr-primeiro, cantar seu canto triste na janela.
Cazuza riu, feito doido. Já morria. Deixaram até que ele levantasse da cama, quem é que podia sentir a febre partindo? O amor vinha redimir as dores, era a cura. 'Garrou um gravetinho, do chão. E pra num morrer-de-amor, resolveu ter perto de si o amôr primeiro, que tanto lhe amava e não sabia dizer, essa mania de avuar.
E com dois filetes grossos de sangue, selou o mais bonito gostar que o sertão já viu.

2 comentários:

Bianca De Vit disse...

Guria, que coisas lindas esses teus textos!! Um estilo meio roseano (olha só!!!) de dar gosto! Adoro!! Parabéns!!

bruno dumont. disse...

nossa... eu tenho muito o que ler aqui...
você ficou "fora do ar" tanto tempo que eu perdi o hábito de aparecer.