1.1.09

respirei fundo. os olhos decidiram não abrir. já sentia o sol no quarto: minhas pernas suavam, no enrôsco de lençol, edredon, meias, um mundo de tecido enrolado nas pernas. por que raios eu preciso me enrolar tanto pra dormir? já sabia que não ia me safar. não deitada. sem abrir os olhos, joguei as pernas pra fora da cama. enrolada ainda. foi aí. nesse exato segundo em que o mau-humor mais bolorento se abateu em mim. cobri os olhos com as mãos. eu sentia a mistura de suor e maquiagem. precisei respirar.
uma
duas
i n f i n i t a s vezes.
os cílios colados, os olhos sêcos. era um prenúncio de ressaca, eu sabia. ninguém na cama. ainda bem. não achei minha calcinha. tentei colocar o vestido da noite anterior. fedia. a cigarro, bebida, suor de outros. tive nojo. me enrolei num lençol. o chão estava imundo, as paredes. lixo, em todos os lugares.
- vão embora. e batam a porta quando saírem; isso fui eu quem disse. e daí, foram embora. pra limpar direito, a casa precisa estar vazia.


antes que o dia estivesse arruinado, passei um café forte. liguei o rádio. peguei um saco de lixo. foram embora muitas latas de cerveja, muitos maços, muitas bitucas. recolhi as camisinhas, sem nojo. juntei os restos de comidas, as garrafas, as flores mortas.
taças, copos, colheres. lavei tudo. e a água caía leve. entre um copo e outro, só mais um trago no cigarro. lavei com sabão e vassoura o chão. corria preta a água.
descascava o esmalte vermelho, vadio. parecia vulgar. os olhos com maquiagem borrada pareciam muito ter chorado. mal sabem vocês, que eu desaprendi a chorar.
suava. o cheiro ordinário da noite desprendendo de mim. a casa voltando a parecer casa. limpei os sofás, encerei o chão. estiquei os tapetes.
botei copos no lugar, os livros, os discos. quando as coisas voltavam ao lugar, as memórias se apagavam.
por fim, da noite, só sobravam os cheiros. queimei o vestido, os lençóis. arranquei o resto do esmalte. me joguei debaixo do chuveiro, gelado. e foi com o cabelo pingando, a cara limpa e cheiro de sabonete que me olhei no espelho.

- adeus ano velho; eu disse.

8 comentários:

Flôr de Azeviche disse...

Parece que vivi tudo isso!
Como sempre, a Lua linda da minha vida, escrevendo lindamente...

Adoro-te ^^

Beijo da Flôr

paulo calvet disse...

A casa-escrita é feita com pedaços de quem a escreve, sua parede é de sangue,suas cortinas de pelve.
Mas responda-me — ela pertence a quem [aquém?] a escreve-tece ou se faz viva nas pupilas de quem lê?

paulo calvet disse...

[silêncio] ...por vezes as
coisas
soam como
um
mi menor
eterno...[silêncio]

"cousa pouca", sofrida de dor ou de ocorrido?

paulo calvet disse...

por vezes se sonha tanto que não se distingue quimera de realidade..
epifanias existem? talvez..
quem sabe a realidade não é nossa maior quimera?
certa vez - eis um caso verídico - uma letra maiúscula se revoltou, pois não queria ser a primeira..
o fim da história já me escapa, é espaço entre grãos da poeira..
[silêncio]

paulo calvet disse...

é assim que se vive: sem impor regras de conduta gramatical a ninguém..

ygor p. disse...

nosso ano mais ânfér.

Monday disse...

texto gostoso de se ler, moça ... bem gostoso ...

e parece que foi, literalmente, uma virada de ano, entrando de alma lavada no calendário novo ...

Flávia disse...

Lembro que uma vez escrevi algo assim.

Mais: lembro que, uma vez, e graças a Deus apenas uma, vivi algo assim - e nem faz tanto tempo. Pra falar a verdade, guardadas as devidas proporções, ficou pra trás justamente no dia em que 2009 nasceu.

Um beijo, moça.