16.7.10

Diluvia! e outros fragmentos.

Chove em São Paulo. Diluvia eu, diluviam os olhos. Chove essa chuvinha fina, chove na cidade da garoa. Chove sem saber por quê. Chovo sem saber por quê. Eita mundo girador, eita mundo.

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Hoje eu amo, aqui, quieta, esse tanto de mundos que eu não entendo. Giramundo. Hoje eu amo cada um que padece embaixo dessa garoa gelada de São Paulo. Padeço eu, acolhida do frio, acolhida das brutalidades ruentas. Padecem os mendigos gelados sob jornais úmidos. E a chuva cai sem perdão, em cima das dores todas. A chuva cai alheia de nós.

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As gotas respingam no parapeito sujo de cinzas de cigarro. Pulam, como meninas, pra cima da aquarela esquecida em cima da mesa. (Nos lábios, as gotas caem salgadinhas e faceiras, como meninas já velhas).

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Será que existe mundo depois da linha do horizonte?

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- Queria descobrir que eu sou mesmo um mar. E me espalhar, sendo o mundo todo e coisa nenhuma. Se ninguém olha para o mar, existe mesmo a onda?
- Existe. A onda independe do olhar.
- Quem te disse? Quem garante? Não tem ninguém lá pra ver. (Se eu choro sem ninguém ver, será que eu sofro mesmo?)
- Depende se o sofrimento é pra sofrer ou pra ostentar.
- E não é a mesma coisa? Só dói porque existe o mundo, existe o resto. Se não não doía. E a onda só dobra porque tem gente pra ver, ouvir afogar.


4 comentários:

Felipe Jordani disse...

bonito. triste. bonito.

Mutante disse...

fico triste nesse frio, sinto-me mal por saber que tem gente e bichos lá fora debaixo dos "jornais úmidos"
...
sim, só dói porque existe o mundo e existem as pessoas (estas é que são um grande problema)

Laís Eva disse...

Fala pra São Pedro que o inverno é cinza por demais!
Diz pra ele que gostamos de amarelo e céu azul de paz!

=*

~*May*~ disse...

O choro que os outros não vêem são as nossas verdadeiras tristezas, pois não a ostentamos, apenas sentimos e as deixamos fluir..