25.7.10

Miniconto translúcido e piscante.

Do alto dos seus seis anos, já conseguia ler umas palavras, já escrevia nomes nas paredes. Um dia, pescou na conversa da irmã mais velha uma palavra linda. Vaga-lume.
Encantou-se com a palavra nova, e gostava de girar no quintal enquanto recitava: "va-ga-lu-me, va-ga-lu-me, va-ga-lu-me". Decidiu que Isabel não era um nome tão bom, mas não podia mudar de nome, assim, do nada. Decidiu perguntar pra irmã:
- Nana, que é vaga-lume?
E a irmã explicou que era um bichinho voador, bem pequeno, que piscava.
- E é mais bonito do que borboleta?
- É, porque só vem a noite. E porque brilha.
E Isabel pensou que não podia haver coisa mais bonita no mundo, que voa e brilha. E pisca-pisca-pisca! Apaixonou-se, queria chamar Vaga-lume (embora gostasse muito de se chamar Isabel e ter seis anos).
Não sabendo como era Amor, Isa pensou que podia prender os bichinhos num pote, para que brilhassem toda vez que ela fizesse virar noite, com o cobertor virado em cabaninha no quarto. Os Lumes morreram e ela ficou muito triste, chorou umas lágrimas bem salgadas, em silêncio.
Isabel pensou mais de uma semana. Precisou de muitos lápis de cera e quase metade da parede do corredor para descobrir a mágica de amar os Lumes, e tê-los para si.
Na sexta-feira, ficou acordada até tarde. Saiu do quarto só de meias, para não acordar ninguém. Pisou na grama e sentiu os pés molhados de orvalho (que ela achava que eram lágrimas de estrela, muito tristes por não verem o sol).
Do alto dos seus seis anos, munida de água, detergente e canudo, caçou vaga-lumes com bolhas de sabão até o céu ficar azul-rosado e o dia despontar preguiçoso.

3 comentários:

Nhock disse...

*-*

Laís Eva disse...

Brilhante!

Brilhou meu olho, Lua.

=*

paulo calvet disse...

Como as crianças, também as boas contadas sobre crianças, têm o poder de remoçar a gente...

Mesmo os velhos por dentro podem refestelar-se pra saírem remoçados depois de um continho desses que, de tão lindo!, é tão-quase-nada.