6.11.10

Cabidela.

Acordou muito cedo, aquele dia. Escolheu as músicas mais animadoras e, de janelas abertas, deixou o sol entrar e limpou toda a sujeira. Guardou os tapetes, para que permanecessem intactos. Com os braços apoiados na janela, tomou um café e fumou um cigarro, enquanto mentalmente imaginava todas as cenas, os gestos, os risos. Tudo seria perfeito.
Amarrou o cabelo e colocou uma roupa de todos os dias, foi ao Mercado Municipal. Comprou os melhores vinhos, os melhores queijos, as carnes mais finas. Gastou todo o dinheiro guardado há anos, mas sabia que valeria a pena.
Na cozinha, era de imenso esmero. Ágil, em pouco mais de dez horas ininterruptas, estava tudo pronto. O tão sonhado banquete. Caldo, puré, peixe, carne tenra, pequenos gracejos - mais bonitos que nutritivos, assados, sorvete, cogumelos, pequenos pastéis assados. A sua sobremesa tão afamada, que não poderia faltar já descansava na geladeira, as frutas muito suculentas, os queijos finos já cortados em tamanho de uma mordida.
Como num ritual, deixou a água do chuveiro quase fria, e livrou-se do cheiro da cozinha, do seu próprio cheiro, de todos os cheiros vivos. Queria apenas uma leve aura perfumada, incógnita. Arrumou os cabelos com uma elegância que não lhe era própria, entrou num vestido preto, os pés num salto alto, a maquiagem perfeita. Com uma grande flor vermelha no pescoço, estava pronta para a sua noite.
Os amigos chegavam, um a um, e ela os recebia com um beijo carmim nos lábios, e uma taça de champanhe. E quando estavam todos acomodados, começou o desfile de sabores e cores, regado a muitos vinhos. As conversas seguiam amenas, até que o prato principal foi servido, o vinho já fazia efeito e começaram as juras de amor, os dizeres da saudade, as promessas irrecuperáveis. E ela sorria, displicente, pronta a trazer o próximo prato.
Foi só durante o brulée que ela deixou algumas emoções subirem à face, e amou muito todos os convivas. Durante o café e os cigarros, traçaram alguns planos, que ela desistiu de argumentar que não aconteceriam. Os queijos vieram, e todos já muito etéreos e etílicos apenas deixavam a música fluir.
Ela, por fim, trouxe morangos, pitangas e amoras, que tingiram de vermelho os dedos e os lábios, causaram risos e incitaram beijos. Demorou um minuto a mais para servir o licor, e todos dormitavam entre espirais de fumaça.
De mãos limpas, afagou os cabelos, tocou os lábios e jurou eternidades, sabendo que essa promessa não morreria. Com a faca de carnes, matou um a um. Lentamente e sem culpa, sabendo que mortos, eles não despedaçariam seu amor.

3 comentários:

muita vontade de escrever disse...

genial, mas me deu medo de você

Michel disse...

de veras muito sensorial. e intenso tbm.
bj

Carolina disse...

nossa, me assustei.
mas foi lindo, me pareceu um filme.