13.10.11

Steve Jobs e a utopia

Desde o dia que o Jobs morreu eu estou pensando nisso. Discuti com muita gente, vi de tudo nesses dias. Desde o cara que certamente vai ganhar uma grana com a sacada do rosto do Jobs na maçã, até a fortuita declaração da Mulher Maçã sobre a Apple. Tinha gente de preto com bottom da Maçã. Um amigo meu me esculhambou, dizendo que eu vejo "as coisas com esse teu olhar urbano de 'temos que resolver tudo agora', quando na verdade as coisas demoram pra mudar e vão morrer alguns chineses no caminho, vão matar algumas focas", já que eu dissesse que o Jobs é um mau exemplo pro mundo. Eu disse, e redigo: o Jobs é um mau exemplo pro mundo.
sabendo que ele arrasou na tecnologia, que o cara era um gênio, blablablá. Mas deixar a babação de ovo corporativa de lado só um pouquinho e colocar as coisas em perspectiva? O cara inventou um megaimpério dos eletrônicos, da comunicação, da troca de arquivos. Pode ser que eu esteja tão acostumada com isso no cotidiano que não consigo ver a real importância, mas acho que ele fez coisas geniais porque podia ganhar dinheiro com isso. Todos queremos ganhar dinheiro e o cara conseguiu isso. Palmas. Agora, usar esse argumento pra dizer que o cara revolucionou a comunicação... Peralá, cara pálida. Quantas pessoas abaixo da linha da pobreza estão comemorando o iPad não-sei-que-número com aplicativos que permitem assobiar enquanto chupa-se cana? Nós temos 42 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza. Ah, mas Lua... , vai falar de revolução, fala de verdade. Pra quem é que teve alguma mudança significativa? Nem precisa ir tão longe, não precisa ver esses miseráveis. Dá onde eu venho, Tiquatira City, ZL, mano, é tudo orkutizado. Sabe o que é isso? A galera não tem pc em casa, baixa uma música de cada vez pra colocar no celular Xing Ling. Essas pessoas tão a reboque? Ou a gente começou a relativizar demais os mundos, hipsterizar tudo?
Fora toda essa questão empresarial, tem o fator EXEMPLO. Sabe quando a sua avó diz pra não andar com os maus exemplos? Pronto, ela tá falando do Jobs. E nem é porque ele usou LSD. Pensem comigo: nós vivemos por conta do trabalho, nossa profissão é mais importante que o nosso hobby, desemprego pega mal. O mundo é esse, a gente já sabe. Cada vez mais o pessoal que anda de bicicleta tá errado. Quem aposta numa vida alternativa é ex-hippie-drogado. Quais são os exemplos que a midia faz a gente engolir? Dos bem sucedidos. E agora, não basta ter dinheiro. É preciso ser produtivo. O Jobs tinha dinheiro, 4,9 bilhões. Isso é um pouco mais do que o meu rendimento atual e creio que se possa ter uma vida razoavelmente tranquila com essa pequena fortuna. Será que ele não podia ter deixado a Apple um pouquinho antes e ter aproveitado a vida (fora da corporação)? Será que ele não podia ter experimentado um sorvete novo, numa cidade nova, com gente que ele nunca viu, já que ele estava morrendo mesmo? É impossível que um cara de 56 anos que se dedicou horrores ao trabalho já tivesse feito tudo que queria, lido tudo que queria, dançado tanto quanto queria. Tudo bem, ele gostava de criar. Será que não seria legar ter criado um jogo de Lego, pu mesmo um iPhone que realmente fosse revolucionário e popular?
Pode ser só um monte de bobagem. Pode ser só panfletagem, mas o Jobs também revolucionou, não é isso? Ele acreditou na telecomunicação do jeito que as pessoas não visualizavam hoje. Pelo menos, foi isso que eu ouvi.

"Pensar que de repente vamos tomar consciência de algo e frear a 'produção de bens de consumo', é utopia".
É. Utopia só é legal depois de realizada.

UPDATE: olhaí, eu sendo inocente. Não são 42mi abaixo da linha da pobreza. São 1,4 bi de ignorantes que não compram logo seu iPad e join a revolução!

Um comentário:

Amanda Bia disse...

Nunca tinha pensado por esse lado. Mas é bom levar um tapa na cara de vez em quando. Você me fez pensar...
Beijos.