1.6.09

Naquela época, eu ainda usava as calças curtas, de menino. Faz tempo, mais ainda me lembro.
Minha primeira namorada. Devia ter a minha idade, mas era morena, seu corpo ainda infantil já tinha qualquer coisa lasciva, naquele jeito de tornear o vestido pobre.
Eu a esperava na sacada, enquanto os meninos menores se aprontavam. Ela trabalhava. Eu, ia ao colégio. Ela não devia saber ler. Aposto como não sabia. Mas, sorria. E era um sorriso de enternecer.
Era só o sorriso, pela manhã, e a expectativa do namoro adiado, até as oito, nove horas, quando voltava, cansada e com os cabelos pretos caídos no rosto. Quase sempre se detinha, a casa grande iluminada. E eu dizia:
- Quer chocolate, Luzia?
E ela replicava: ah, Menino! Que meu doce é café, com rapadura.
E não tinha jeito, nunca, de me chamar de Pedro.
- É Pedro, Luzia.
- Sinhozinho.
E continuava naquele passo cansado que as mulheres daquele tempo tinham.
Porque Luzia trabalhava, eu nunca entendia. Da pele morena, tão linda. Uma vez me disse: deixe disso, branco.
Branco, branco, eu nunca entendi.
Sei que Luzia foi minha primeira traição.
Eu tinha as palavras mais doces pra ela, e o doce na mão. E ela nunca me vinha. Mas, namoro é assim mesmo. E um dia, Luzia foi trabalhar comendo pão.
- Quer café com leite, Luzia?
- Tenho pão, já, Menino.
E sorria, dum sorriso perdido. me amava, decerto.
Naquela quermesse, Luzia apareceu de braço dado com o Quim, o filho do padeiro. E daquele sorriso perdido, eu não tive nem a raspa.
Luzia, cabrocha traiçoeira.
Como é que me troca, Luzia, com chocolate na mão, por um pão, assim, sem nada?

5 comentários:

Bianca De Vit disse...

"Menina"... Que bela narrativa! Gostei muito! Parabéns!

Flôr de Azeviche disse...

Eu ia dizer o mesmo que a "Bianca de Vit". Foi/é um texto muito gostoso de ler, Lua linda...

Beijoos

Dri Viaro disse...

adorei!!
bjs

Alice disse...

estava com saudades tuas!

ficou ótima a nova decoração!

Dudu disse...

Mas assim, já acabou?

Sinhazinha...