24.8.10

Vai desabar água.

Ela assoprou e disse:
- Sente isso?

E ele não respondeu, mas quase não importa que responda, ou o que responda. Sinto, sinto isso, sinto o que me escorre dos lábios o que pula dos meus dedos, eu sinto a pele, o medo, o desconforto, a ansiedade. Sente isso? Sim, eu sinto! E como se não me lembrasse mais como se sente, eu me deleito, eu deixo fluir o desgosto, o ciúme, a irritabilidade.
Eu fui apática, meu deus, eu fui. Eu não te disse, eu tentei não dizer. Eu não procurei, mas eu sabia que os pés me levariam de volta, porque os sapatos decoram os caminhos, e só de pés descalços é que conheço outras rotas. Eu sabia que mesmo descalça eu voltaria pra você.
Eu fiquei sozinha, no meu quarto, esperando você voltar. Você voltou. E eu, fui pra janela esperar de novo, porque os calos dos meus cotovelos eu nunca vou deixar que sarem. Eu vou esperar quem nem sabe que veio, quem nem sabe de nada. Eu vou deixar que quem feriu volte, quem não veio volte.
Vai, vai, vai amar. Vai, vai, vai sofrer. Eu não quero parar, eu gosto do sangue. Mesmo quando todo o sangue vem junto, mesmo quando o rio se transforma em mar. Eu quero inundar. Não me desculpa as palavras ditas, porque eu quero enunciá-las mais. Pra você que ouve, pra você que foge, pra você.
Aquele cara que sabe tudo, bem, ele não sabe nada. Ele sabe da superfície, de um infinito que ele nunca vai adentrar, ele não pode. Eu prefiro que quem tem muito jeito pra quebrar tudo que entre, porque a paz nunca vai me fazer feliz. Eu ligaria pra muitas pessoas, e diria muitas coisas que não se dizem. Pra poder me arrepender depois. Porque da pior maneira, isso é um meio de caminho de ser eu também. Eu não vou mudar, não tão profundamente a ponto de deixar meu erros, eu preciso ter um estilete na bolsa, porque o controle também é preciso. Isso que me faz eu. Isso que atrai, isso que não atrai. Sempre eu mesma.
Eu vou sair do armário, mas não de todos. Aliás, eu queria que você não me odiasse, mas estou fazendo armários pra que eu possa morar neles, eu gosto dos armários. Eu nunca vou ser livre como vocês, mas eu nunca serei tão contida quanto elucido.
Não sei mais usar as palavras certas, o certo deixou de ser uma possibilidade há muito tempo. Não, eu não quero só o amor. Querer só o bom é esperar ser um outro, que eu não vou ser. Minhas mãos ainda vão tremer de raiva. Eu ainda vou pensar em planos de morte. Eu ainda vou ser assim. Obsessiva-compulsiva. Meu humor vai flutuar, eu vou querer morrer e vou seguir vivendo.
Eu não vou mais olhar na sua cara, porque dos pecados capitais, talvez o que eu mais demore mas mais fundo aja seja o orgulho. Aliás, eu vou me esquecer me você, e não é uma promessa, é um fato.
Eu não vou esquecer de você, nunca, porque menos de uma hora me fez florescer, menos de uma hora me fez sonhar, uns poucos minutos mudaram o meu mundo. Não sei se meu universo, mas meu mundo, no espaço tempo de agora.
Calei por anos demais, era hora de dizer. Disse durante anos, não é hora de calar. Vão passando os anos e eu não te esqueci. Vou me autobiagrafar num blog que ninguém lê, porque eu esqueci como se conta um conto.
Vou amar pra sempre.
Amei pra sempre.
Até que amanhã tudo mude, pra continuar igual.

E é pro nosso bem.

3 comentários:

Ludmila Melgaço disse...

Vi você na Jaya e a visita foi inevitável. Só de ver Ossanha minha colher já enfiou no seu samba, sem a menor cerimônia.

Pergunte ao seu Orixá: o amor só é bom se doer.

E você se derramando, Lua, pras cucuias com a (in)coerência, acho tudo muito digno a ponto de não conseguir me expressar.

(Que os pés encontrem o caminho certo. Ou não.)

Amanda Bia disse...

e amar p/ sempre é o que há. mesmo que não seja real, mesmo que seja só na sua cabeça. o que importa é amar.
beijo!

muita vontade de escrever disse...

Antes de mais nada, te ler é como estar em casa :)
E se não for caótica, não é a Lua. Certo ou certo?